O governo de Donald Trump anunciou na quarta-feira (22) a assinatura do Acordo 123 com a Arábia Saudita, que abre caminho para a participação de empresas norte-americanas no programa de energia nuclear do reino. A iniciativa, apresentada como estritamente civil, provocou reações imediatas em Israel e entre parlamentares dos Estados Unidos.
Preocupação em Tel Aviv
Naftali Bennett, ex-primeiro-ministro israelense e rival do premiê Benjamin Netanyahu na eleição de outubro, classificou o compromisso como “grave falha estratégica” e afirmou que ele coloca a segurança de Israel em risco. Para Bennett, a possibilidade de enriquecimento de urânio em território saudita pode desencadear “uma corrida nuclear regional” e gerar “perda de controle perigosa”.
O ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman, hoje deputado no Knesset, fez coro e previu que um programa nuclear saudita acabará resultando em armas nucleares, alimentando uma “corrida armamentista desenfreada” no Oriente Médio.
Ceticismo no Capitólio
No X (antigo Twitter), o senador democrata Chris Murphy alertou que o pacto “desencadeará uma corrida nuclear na região” e reduzirá ainda mais o incentivo para o Irã conter o próprio programa.
Histórico de declarações sauditas
A imprensa internacional recordou entrevistas de 2018, quando Washington abandonou o acordo nuclear com Teerã. Na época, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman declarou à CBS News que a Arábia Saudita “sem dúvida” buscaria armas nucleares caso o Irã as desenvolvesse. O então chanceler Adel al-Jubeir repetiu a mesma posição à CNN.
Especialista vê pontos em aberto
Para Sandro Teixeira Moita, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), o anúncio é genérico e suscita dúvidas sobre o nível de enriquecimento de urânio que o reino pretende adotar. “Se ficar em torno de 4% ou 5%, é pacífico. Acima de 20%, tem caroço nesse angu”, afirmou à Gazeta do Povo.
Moita lembrou que Riade há anos financia pesquisas em energia limpa dentro do plano de diversificação econômica, mas esbarrava em barreiras geopolíticas. “Desta vez eles têm um governo americano favorável e parecem ter conseguido avançar”, disse.
Trump impõe condição e nega enriquecimento
Em declaração nesta quinta-feira (23), Trump afirmou que o acordo não autoriza o enriquecimento de urânio na Arábia Saudita e só entrará em vigor se o reino estabelecer relações diplomáticas formais com Israel.
Irã no radar
O especialista da Eceme observou que, apesar do restabelecimento de relações diplomáticas entre sauditas e iranianos em 2023, a guerra iniciada em fevereiro reacendeu desconfianças, sobretudo após ataques de houthis, aliados de Teerã, a navios sauditas no Mar Vermelho. “Dar capacidade nuclear a um país em guerra é deixar um gênio sair da lâmpada”, comentou.
Quanto à possibilidade de Teerã acelerar seu programa, Moita avaliou que o Irã teria dificuldades logísticas em meio à pressão econômica e militar dos EUA: “Não adianta testar e não ter material para a segunda bomba”.
Com informações de Gazeta do Povo