A China realizou, na semana passada, o disparo de um míssil balístico intercontinental a partir de um submarino de propulsão nuclear no Oceano Pacífico Sul, movimento que reforça a capacidade de segunda resposta de Pequim e amplia a apreensão de Estados Unidos e aliados.
O teste sinaliza que o país já domina a chamada tríade nuclear – sistemas de lançamento por terra, mar e ar – recurso hoje plenamente disponível apenas a EUA e Rússia. “Quando um míssil parte de um submarino nuclear, fala-se diretamente em segunda resposta, algo estratégico para a dissuasão”, explicou o coronel da reserva Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais, em entrevista à Gazeta do Povo.
Segunda resposta e Destruição Mutuamente Assegurada
Segundo Coutinho, a segunda resposta garante que um país possa contra-atacar mesmo após sofrer um primeiro golpe nuclear, conceito central da doutrina de Destruição Mutuamente Assegurada (MAD). “Isso impede que o adversário acredite que pode vencer destruindo tudo no primeiro ataque”, afirmou.
Crescimento acelerado do arsenal
Relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) apontou que a China elevou o número de ogivas de aproximadamente 300, em 2020, para 600, em 2025, e projeta mais de mil até 2030. Em desfile militar de 3 de setembro de 2025, o regime exibiu mísseis capazes de atingir todo o território continental norte-americano.
Coutinho observa que o avanço foi possível graças à modernização da frota de submarinos, inicialmente baseada em tecnologia russa. “A China deve ter recebido conhecimento sensível de Moscou em troca do apoio que presta à Rússia”, avaliou.
Reação internacional
Após o teste, o Departamento de Estado dos EUA classificou o crescimento “rápido e opaco” do arsenal chinês como motivo de “grande preocupação” e cobrou a participação de Pequim em negociações de controle de armas. Austrália, Nova Zelândia e Japão disseram não ter sido avisados com antecedência suficiente e reclamaram da falta de transparência.
O míssil caiu dentro da Zona Livre de Armas Nucleares do Pacífico Sul, área estabelecida pelo Tratado de Rarotonga (1986) e ratificada pela própria China em 1987, o que gerou críticas adicionais. Até o momento, contudo, não houve resposta mais dura contra Pequim. Para Coutinho, eventuais sanções teriam efeito limitado: “A China dispõe de várias cartas para revidar”, disse.
O lançamento ocorre em meio ao aumento da pressão militar chinesa sobre Taiwan e às advertências de Pequim aos Estados Unidos pelo apoio à ilha, intensificando o debate internacional sobre estabilidade estratégica na região.
Com informações de Gazeta do Povo