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Suécia encolhe Estado, baixa dívida e volta a crescer após reformas

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Estocolmo — Três décadas depois de ver o Produto Interno Bruto (PIB) cair por três anos seguidos e o banco central fixar juros de 500% ao ano, a Suécia exibe uma das dívidas públicas mais baixas da Europa e projeções de crescimento acima das de Alemanha e França. A reversão começou ainda nos anos 1990, quando governos de centro-direita e centro-esquerda passaram a reduzir o peso do Estado e a abrir espaço para a iniciativa privada.

Do “lar do povo” ao limite dos 70% do PIB

O modelo conhecido como folkhemmet (“lar do povo”) foi construído a partir da década de 1930 pelo Partido Social-Democrata, que permaneceu no poder ininterruptamente até 1976. Entre os anos 1970 e meados dos 1980, o sistema de bem-estar social expandiu-se a ponto de elevar o gasto público para mais de 70% do PIB, exigir uma das maiores cargas tributárias do mundo — a alíquota máxima do Imposto de Renda encostou em 90% — e transformar o Estado em um dos principais empregadores do país.

A conta começou a não fechar na década de 1970, quando as exportações suecas perderam competitividade em meio à crise do petróleo de 1973. A inflação disparou, os déficits se tornaram recorrentes e, mesmo após a alternância de poder em 1976, a deterioração seguiu até explodir no início dos anos 1990. Entre 1990 e 1993, o desemprego saltou de 2% para 11% e uma onda de quebras bancárias abalou o sistema financeiro.

Pacote bipartidário de reformas

Pressionados pela recessão, partidos de diferentes matizes concordaram em redesenhar o Estado. As principais medidas adotadas ao longo dos anos 1990 e 2000 incluíram:

  • teto de gastos e meta de superávit fiscal (0,33% do PIB);
  • reforma da previdência, com contas individuais e gatilhos automáticos de ajuste;
  • cortes no seguro-desemprego e nos subsídios habitacionais;
  • abertura de saúde e educação à concorrência privada;
  • privatizações e redução de impostos — a alíquota máxima do IR caiu para cerca de 50% e foram extintos os tributos sobre herança e patrimônio.

Com isso, o gasto total encolheu de aproximadamente 72% para 50% do PIB, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O componente social (saúde, educação e benefícios) recuou para menos de 24% — bem abaixo dos mais de 30% observados em França e Itália.

Mercado privado ganha espaço

Atualmente, 47% das unidades de atenção primária de saúde são administradas por operadores particulares, de acordo com dados de 2024 da associação Vårdföretagarna. No ensino básico, o ingresso de escolas privadas financiadas por vouchers públicos gerou concorrência que, segundo estudo do Institute of Labor Economics (IZA) divulgado em 2012, melhorou moderadamente o desempenho das instituições estatais.

Resultados econômicos

O rigor fiscal derrubou a dívida pública para cerca de 35% do PIB, nível considerado baixo na Europa. A OCDE projeta que o PIB sueco crescerá 1,6% em 2025, 2,6% em 2026 e 2,3% em 2027, ritmo superior ao previsto para as duas maiores economias da zona do euro. Para a ministra das Finanças, Elisabeth Svantesson, as reformas transformaram o país em “terra de oportunidades”.

Segundo o economista Stefan Fölster, ex-funcionário do Ministério das Finanças, a renda real das famílias dobrou desde os anos 1990, após décadas de estagnação sob impostos elevados. Estudo de 2023 do Fraser Institute aponta que, em vários indicadores de liberdade econômica, a Suécia supera os Estados Unidos, exceto no quesito tamanho do governo.

Nova regra fiscal a partir de 2027

Em outubro de 2024, seis dos oito partidos do Riksdag (Parlamento) acertaram substituir a meta de superávit por uma regra de orçamento equilibrado, autorizando o governo a gastar tudo o que arrecada. A mudança, proposta pelo premiê Ulf Kristersson (centro-direita) e aprovada formalmente em novembro de 2025, passa a valer em 2027.

O Executivo argumenta que a flexibilização é necessária para destravar investimentos em quatro áreas: modernização de transportes e energia, transição verde, combate a gangues e elevação dos gastos militares a 5% do PIB, patamar pedido pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Eleição de setembro de 2026

A cerca de um ano do pleito marcado para 13 de setembro, pesquisas de abril dos institutos Novus e Ipsos indicam vantagem da oposição de centro-esquerda, com 52% a 54% das intenções de voto, contra 44% a 46% do bloco governista. O Partido Social-Democrata lidera com 32% a 34%, seguido pelos nacionalistas Democratas Suecos (19% a 21%) e pelos Moderados, de Kristersson.

Em campanha, os sociais-democratas defendem proibir lucro em escolas privadas financiadas pelo Estado e ampliar o gasto social, inclusive revertendo parte dos cortes tributários dos últimos anos.

Resta saber nas urnas se o modelo de menor intervenção estatal, que levou a Suécia a reduzir despesas em duas décadas, permanecerá intocado ou sofrerá novo ajuste de rota a partir de 2027.

Com informações de Gazeta do Povo