Dois dias depois de a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) ser declarada em cisma e sofrer excomunhão automática pela Santa Sé, um de seus presbíteros manifestou confiança em que o grupo tradicionalista voltará a ser reconhecido por um futuro pontífice.
Durante missa celebrada no domingo (5) em Wil, nordeste da Suíça, o padre Georg Kopf declarou que “um dia haverá outro papa que abrirá a porta e nos acolherá de volta, assim como o papa Bento”. Em 2009, Bento XVI suspendeu a excomunhão que pesava sobre os bispos da fraternidade desde 1988.
Ordenações que levaram ao cisma
A nova crise começou em 1º de julho, quando a FSSPX consagrou quatro bispos — o suíço Pascal Schreiber, o norte-americano Michael Goldade e os franceses Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier — durante cerimônia em Écône, Suíça. Como o rito ocorreu sem mandato pontifício, o direito canônico considera a ação cismática e impõe excomunhão automática aos envolvidos.
No dia seguinte (2), o Vaticano confirmou a sanção, declarou a fraternidade em cisma e informou que o papa Leão XIV fizera um último apelo para que a ordenação não acontecesse. A Santa Sé advertiu que o ato privaria fiéis da recepção lícita — e, em algumas situações, até válida — dos sacramentos.
Sacerdote nega intenção de romper
Em seu sermão, Kopf refutou a ideia de que a cerimônia representou ruptura definitiva com Roma. “Nada do que aconteceu em 1º de julho teve a intenção de estabelecer uma Igreja paralela ou romper com Roma”, afirmou. Segundo ele, as ordenações foram motivadas por “amor à Igreja e ao papa” e visam “cuidar da salvação das almas”.
Portas de retorno definidas pela Santa Sé
O Dicastério para a Doutrina da Fé divulgou orientações para facilitar o retorno de sacerdotes da FSSPX à plena comunhão. O processo inclui pedido formal de remissão da excomunhão dirigido ao papa, profissão de fé e período probatório de até três anos antes da reintegração ao ministério. Para leigos ligados à fraternidade, possíveis penalidades serão avaliadas caso a caso.
Histórico de atritos
A FSSPX foi criada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, opositor de diversas reformas do Concílio Vaticano II. Em 1988, Lefebvre consagrou quatro bispos sem autorização do papa João Paulo II, o que resultou na primeira excomunhão do grupo. Embora Bento XVI tenha levantado a sanção em 2009, a fraternidade permaneceu sem status canônico.
Nos últimos anos, o papa Francisco concedeu algumas permissões, como a validade das confissões administradas pelos sacerdotes da FSSPX desde o Jubileu da Misericórdia, em 2015, e a possibilidade de testemunharem casamentos em determinadas circunstâncias a partir de 2017. A ordenação de novos bispos sem mandato, porém, reverteu o processo de aproximação.
Com as excomunhões confirmadas, o Vaticano voltou a classificar a entidade como cismática, encerrando a mais recente tentativa de reconciliação.
Com informações de Gazeta do Povo