Londres – O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou nesta segunda-feira (22) que deixará o cargo, abrindo um processo interno no Partido Trabalhista para a escolha de seu sucessor até setembro. O próximo ocupante de Downing Street será o sétimo em apenas uma década, período marcado por seguidas crises políticas, econômicas e sociais.
Starmer explicou que a legenda definirá o novo líder por meio de votação interna durante o recesso parlamentar. Enquanto isso, o partido nacionalista de direita Reforma Reino Unido cobra a convocação de eleições gerais antecipadas – o pleito nacional está programado somente para 2029.
Pressão crescente
A permanência de Starmer vinha sendo questionada desde o início do ano, quando ele admitiu ter conhecimento das ligações do ex-embaixador britânico em Washington, Peter Mandelson, com o financista americano Jeffrey Epstein, morto em 2019 e acusado de tráfico sexual de menores. O premiê alegou que Mandelson ocultou a dimensão dessa relação, mas o caso fragilizou o governo.
O quadro econômico estagnado e o aumento das tensões migratórias também minaram o apoio ao primeiro-ministro. A derrota trabalhista nas eleições locais de maio, em que o Reforma Reino Unido conquistou avanços expressivos, foi considerada o estopim para a renúncia. Diversos membros do gabinete já haviam deixado seus postos nas últimas semanas.
Década de trocas no comando
O Reino Unido, acostumado a lideranças duradouras – Margaret Thatcher governou por 11 anos e Tony Blair, por dez –, experimenta desde 2016 sucessivas mudanças no gabinete:
- David Cameron (2010-2016) renunciou após o referendo do Brexit;
- Theresa May (2016-2019) saiu sem conseguir aprovar o acordo de saída da União Europeia;
- Boris Johnson (2019-2022) deixou o cargo em meio ao escândalo do “Partygate”;
- Liz Truss (2022) permaneceu 50 dias, abatida pela reação negativa a seu plano econômico;
- Rishi Sunak (2022-2024) foi derrotado pelos trabalhistas nas urnas;
- Keir Starmer (2024-2026) renuncia agora, pressionado por crises internas e eleitorais.
‘Ingovernável’ ou apenas mais difícil de governar?
Para Hannah White, diretora do think tank Institute for Government, o país não se tornou ingovernável, mas enfrenta desafios que sucessivos líderes não conseguiram superar, como as consequências do Brexit, a pandemia de Covid-19 e o impacto de tensões geopolíticas sobre energia e comércio.
Eduardo Galvão, professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, avalia que as instituições continuam funcionando e a transição ocorre dentro da normalidade democrática. Entretanto, ele aponta que eleitores mais voláteis, ciclos de informação mais curtos e maior polarização reduziram o horizonte político dos governos britânicos.
Já o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena vê na derrota trabalhista nas eleições locais o sinal de enfraquecimento de Starmer. Ele afirma que tanto conservadores quanto trabalhistas não conseguiram entregar resultados positivos no pós-Brexit, tornando o país “mais pobre, burocrático e complexo”.
Apesar da pressão da direita para eleições antecipadas, analistas consideram improvável que o Partido Trabalhista abra mão da maioria conquistada em 2024. O principal desafio do futuro primeiro-ministro, afirmam, será reconstruir legitimidade política em meio a um eleitorado cada vez mais fragmentado.
Com informações de Gazeta do Povo