Lima — Os eleitores peruanos participam neste domingo, 12 de abril, do primeiro turno da eleição presidencial que pode definir quem tentará, pela primeira vez desde 2016, cumprir um mandato completo de cinco anos no país.
As pesquisas apontam dois nomes da direita na dianteira para disputar o segundo turno, marcado para 7 de junho: Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, e o ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga. Embora liderem os levantamentos, ambos aparecem atrás do percentual de votos em branco, sinal de desalento de parte do eleitorado após uma década de instabilidade.
Cenário de sucessivas trocas no poder
Desde que Ollanta Humala concluiu seu mandato, em julho de 2016, o Peru já teve oito presidentes:
• Pedro Pablo Kuczynski renunciou em 2018 sob denúncias ligadas à Odebrecht.
• O vice Martín Vizcarra assumiu, mas foi destituído pelo Congresso em novembro de 2020.
• Manuel Merino, então presidente do Legislativo, permaneceu apenas cinco dias após protestos.
• Francisco Sagasti liderou um governo de transição até julho de 2021.
• O esquerdista Pedro Castillo venceu a eleição daquele ano e foi deposto em dezembro de 2022 após tentar um autogolpe.
• A vice Dina Boluarte assumiu, perdeu apoio de esquerda e direita e foi destituída em outubro de 2025.
• José Jerí, presidente do Congresso, ficou no cargo até fevereiro, quando também foi removido.
• O atual mandatário é José María Balcázar, de orientação de esquerda.
Ex-presidentes na mira da Justiça
Em pouco mais de um ano, quatro ex-governantes receberam condenações:
• Pedro Castillo: 11 anos, 5 meses e 15 dias (novembro de 2025) por tentativa de autogolpe.
• Martín Vizcarra: 14 anos (novembro de 2025) por corrupção.
• Alejandro Toledo: 13 anos e 4 meses (setembro de 2025) por lavagem de dinheiro no caso Ecoteva, além de pena anterior de 20 anos e 6 meses (outubro de 2024) por conluio e lavagem envolvendo a Odebrecht.
• Ollanta Humala e a esposa, Nadine Heredia: 15 anos (abril de 2025) por financiamento ilegal de campanha. Após a sentença, Heredia pediu asilo à Embaixada do Brasil em Lima e foi recebida em Brasília.
Motivos da instabilidade
Para Frederico Dias, professor de relações internacionais do Ibmec Brasília, dois pontos explicam a crise recorrente:
1. A cláusula de “incapacidade moral permanente” na Constituição, que permite ao Congresso destituir o presidente com maioria qualificada sem crime tipificado.
2. A extrema fragmentação partidária, que resulta em chefes de governo sem base sólida e parlamentos hostis, fomentando paralisia decisória e frequentes pedidos de impeachment.
O especialista observa que a alta proporção de intenções de voto em branco reflete desconfiança estrutural e tende a fragilizar ainda mais a legitimidade de quem for eleito, alimentando o ciclo de crises.
Com o país à espera do resultado das urnas, persiste a dúvida se o próximo presidente conseguirá romper a sucessão de quedas e levar o mandato até 2031.
Com informações de Gazeta do Povo