As autoridades da Bielorrússia cancelaram ou se recusaram a renovar as autorizações de residência de ao menos dez padres e um monge católicos de nacionalidade polonesa entre março e maio deste ano, obrigando‐os a deixar o país e agravando a já crônica falta de clero nas paróquias locais.
Expulsões em série
No início de março, dois sacerdotes da Diocese de Pinsk, no sul do país, tiveram negada a permissão para continuar o ministério. Em maio, três padres da Diocese de Vitebsk, no norte, perderam seus vistos, seguidos, no fim do mesmo mês, por cinco padres e um monge que atuavam na Arquidiocese de Minsk-Mohilev. Todos serviam na Bielorrússia havia anos — alguns, há décadas — e ocupavam funções de liderança paroquial ou de decanato.
Regulamentação restritiva
A Bielorrússia exige que qualquer clérigo estrangeiro obtenha aval pessoal do Plenipotenciário para Assuntos Religiosos e Étnicos, órgão estatal comandado por Aleksandr Rumak. As permissões, vinculadas a uma paróquia específica, costumam valer de três a seis meses, com raras concessões de um ano. Além disso, os religiosos precisam comprovar fluência em bielorrusso ou russo e só podem celebrar missas fora da paróquia com nova autorização governamental. Sermões, sites e redes sociais também são monitorados pelos serviços de segurança.
As regras permitem que o governo revogue vistos sem justificativa. Foi o que ocorreu com o padre polonês Józef Geza, obrigado a sair do país em 2022 após 25 anos de ministério.
Escassez de sacerdotes
Em entrevista concedida em 28 de maio à Vatican News, o arcebispo metropolitano de Minsk-Mohilev, Iosif Staneuski, reconheceu que o número de padres em atividade no país “diminui constantemente”, sobretudo nas regiões orientais. Segundo ele, alguns sacerdotes já percorrem centenas de quilômetros para atender a várias paróquias. Staneuski defende o fortalecimento de vocações locais como saída definitiva para o problema, uma vez que as restrições a estrangeiros tendem a se manter.
Relação conturbada com o governo
O atrito entre o Estado bielorrusso e a Igreja Católica ganhou força após a contestada reeleição do presidente Alexander Lukashenko em 2020, quando templos acolheram manifestantes e líderes eclesiais criticaram a repressão. Desde então, dezenas de sacerdotes enfrentaram ameaças, multas, deportação ou prisão sob acusações de espionagem e traição que grupos de direitos humanos classificam como fabricadas.
A tensão subiu outro degrau em 2022, depois de a Bielorrússia permitir que tropas russas usassem seu território na invasão em larga escala da Ucrânia. Seguindo a posição do Vaticano, a hierarquia católica local tem pedido paz e rejeitado maior envolvimento belarusso no conflito, postura que desagrada Minsk, alinhada ao Kremlin.
Fatores históricos e políticos
Os laços históricos da Igreja Católica no país com a vizinha Polônia — principal crítica de Lukashenko na União Europeia — alimentam a desconfiança do governo. A concentração de católicos nas províncias ocidentais de Grodno e Brest, próximas à fronteira polonesa, e a formação de muitos padres em seminários poloneses reforçam a percepção oficial de influência externa.
Em 2020, o chefe da Inteligência Estrangeira da Rússia, Sergey Naryshkin, chegou a acusar os Estados Unidos de usar comunidades católicas bielorrussas para fomentar agitação interna, embora nenhuma prova tenha sido apresentada. No mesmo sentido, ativistas como o Nobel da Paz Ales Bialiatski, católico praticante, continuam denunciando violações de direitos humanos no país — tema levado ao Papa em 27 de maio.
Enquanto as tensões persistem, a Igreja tenta reorganizar seu quadro de pessoal para garantir atendimento pastoral às paróquias que perderam seus líderes.
Com informações de Gazeta do Povo