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Produtividade brasileira retrocede 66 anos e põe crescimento em xeque

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Brasília — A produtividade da economia brasileira encolheu 18,5% desde 1980 e voltou a patamares registrados em 1958, aponta o instituto norte-americano Conference Board. O recuo interrompeu um ciclo de avanço que havia levado o país ao pico de eficiência há 44 anos e hoje limita o potencial de expansão da renda e dos salários.

Considerada pelos economistas o principal motor do crescimento sustentável, a produtividade mede quanto valor é gerado com a mesma quantidade de mão de obra, capital ou tecnologia. Quando o indicador cai, empresas precisam de mais recursos para produzir o mesmo resultado, o que reduz a competitividade.

Agro resiste, mas ritmo geral segue fraco

Levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) mostra que, entre 1996 e 2025, a produtividade do trabalho avançou apenas 6,1%, avanço concentrado quase todo na agropecuária. O setor rural prosperou ao rejeitar o protecionismo e investir em biotecnologia, genética avançada e técnicas de plantio modernas, com apoio da Embrapa.

Perda de peso na economia mundial

A fraqueza do indicador ajuda a explicar a desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB). Em 1980, o Brasil respondia por 2,8% da produção global; em 2024, a fatia caiu para 2,1%, segundo o Banco Mundial. A expansão média anual do PIB foi de 2,2% nas últimas quatro décadas, o que coloca o país na 102ª posição entre 153 nações — atrás de economias que enfrentaram conflitos, como Colômbia, Nigéria e Irã.

Fim do bônus demográfico pressiona

De acordo com a economista Sílvia Matos, do FGV Ibre, parte do crescimento passado decorreu da incorporação maciça de trabalhadores ao mercado, o chamado bônus demográfico. A taxa de crescimento populacional, que era de 0,8% ao ano em 2015, caiu pela metade em 2024 e deve chegar a zero nos próximos 15 anos. “Sem novos braços, a saída é elevar a produtividade”, alerta a pesquisadora.

Seis gargalos que travam a eficiência

Relatórios do Fórum Econômico Mundial (WEF) e do Instituto IMD, da Suíça, apontam obstáculos estruturais que comprimem a competitividade brasileira:

1. Labirinto regulatório — O Brasil liderou em 2021 e 2022 o Índice Global de Complexidade Corporativa do TMF Group, caindo para o sexto lugar em 2025. Entre 1988 e o segundo semestre de 2025, foram editadas 2,36 normas tributárias por hora útil, segundo o IBPT, gerando insegurança jurídica e encarecendo o planejamento de longo prazo.

2. Descompasso no mercado de trabalho — Baixa qualificação e carência de profissionais aptos às novas tecnologias são listadas pelo IMD como entraves prioritários. O instituto recomenda ampliar o acesso a ensino de qualidade e programas contínuos de requalificação.

3. Atraso em inovação e tecnologia — Na infraestrutura tecnológica, o país caiu da 58ª posição em 2022 para a 60ª em 2025. Na pesquisa científica, ficou em 39º lugar no mesmo ano. O IMD destaca a necessidade de elevar investimentos em P&D e aproximar universidades do setor produtivo.

4. Nó logístico — Falhas em portos, rodovias e ferrovias elevam custos. Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Movimento Brasil Competitivo calculou que, em 2021, barreiras de negócios impuseram ônus adicional de R$ 1,7 trilhão às empresas.

5. Protecionismo crônico — A tarifa média de importação é de 12%, contra 8,6% no mundo. Abertura comercial de 2024 equivale à observada globalmente há meio século. Para o economista José Márcio Camargo, “é mais barato ir a Brasília pedir proteção do que investir em tecnologia”.

6. Instabilidade macroeconômica — O setor público acumula déficits desde novembro de 2014. A poupança interna, de 14,5% do PIB em 2026, não cobre a taxa de investimento de 17%, muito abaixo da média global de 26%. A necessidade de financiar dívidas antigas encarece o crédito e inibe projetos de longo prazo.

Perspectivas — Especialistas concordam que, sem reformas para atacar esses gargalos, o país corre o risco de manter o crescimento abaixo da média mundial e perder espaço nas cadeias globais de valor.

Fim.

Com informações de Gazeta do Povo