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Guiana promete terra gratuita e pacto de até 99 anos para agricultores brasileiros

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A Guiana, que passou a integrar o grupo dos países mais ricos da América do Sul após descobrir grandes reservas de petróleo em alto-mar, colocou a agricultura no centro da sua estratégia de desenvolvimento e pretende contar com produtores brasileiros para acelerar esse plano. O governo local oferece concessões de terra sem custo, por períodos de até 99 anos, exigindo apenas que as áreas sejam efetivamente cultivadas.

300 mil hectares de savana à espera de grãos

O país disponibiliza, de imediato, cerca de 300 mil hectares de savana — semelhantes ao Cerrado brasileiro e ao Lavrado de Roraima — para o plantio de soja e milho. Como 86% do território continua coberto por floresta, não há, segundo as autoridades, barreiras ambientais para a abertura dessas novas áreas agrícolas.

O paranaense Emílio Araújo, criado em Rondônia, é um dos poucos brasileiros que já aderiram à proposta. Ele deixou Manaus em meio a entraves ambientais e, em apenas três safras, expandiu sua área de 500 para 4 000 hectares em Linden, no centro do país. “O que me convenceu foi a facilidade de trabalhar; não há tantos empecilhos”, relatou.

Incentivos e condições

Além da cessão gratuita da terra, o pacote inclui isenção de impostos sobre máquinas e sobre a produção rural. O interessado deve apresentar um projeto, comprar equipamentos, insumos e dividir custos operacionais. “Eles não querem aventureiros. É preciso chegar com capital”, descreveu o pecuarista roraimense Alair Gonçalves, que atua como corretor de áreas rurais na fronteira.

O diretor da Agência de Investimentos da Guiana, John Edghill, lembrou que concessões passadas foram retomadas quando estrangeiros não cumpriram o combinado. Para evitar a repetição, o governo pretende checar a capacidade financeira dos candidatos.

Metas para 2030 e foco no Caribe

Em Georgetown, o ministro da Agricultura, Zulfikar Mustapha, afirmou a uma comitiva brasileira que o objetivo é cortar em 25% as importações de alimentos até 2030 e transformar a Guiana em plataforma de exportação para os 15 países da Comunidade do Caribe (Caricom). A demanda mais urgente é por milho e soja, insumos essenciais para ampliar a produção de frango, principal proteína consumida na região.

Mustapha também citou chances na pecuária para abate halal, na aquicultura e na produção de frutas, hortaliças e água de coco. Segundo Richard Blair, conselheiro governamental, está em criação um banco de fomento nos moldes do BNDES, com juros que podem chegar a 0,5% ao ano.

Desafios estruturais

A Guiana é o único país sul-americano de língua inglesa, o que já impõe barreiras iniciais para brasileiros. Falta ainda um mapa georreferenciado das áreas disponíveis, dados pluviométricos confiáveis e definição clara dos modelos de parceria.

No transporte, avança a pavimentação da rodovia de 680 km entre Lethem, na fronteira com Roraima, e o porto de Georgetown. Restam cerca de 400 km de asfalto, obra estimada para até quatro anos. A logística fluvial também é limitada: o Rio Berbice, usado por Araújo para receber insumos e escoar produção, precisa ser dragado para permitir embarcações maiores.

Outro ponto crítico é a ausência de grandes tradings ou esmagadoras de soja. Produtores temem plantar sem ter para quem vender óleo e farelo. Blair reconheceu a lacuna, mas aposta que a instalação dessas indústrias acompanhará o aumento da área cultivada.

Visita de 2 000 km e opiniões divididas

Uma delegação de agricultores, liderada pelo ex-ministro brasileiro Antonio Cabrera, percorreu cerca de 2 000 km no território guianense para avaliar oportunidades. Parte do grupo cobra um projeto detalhado que apresente, com números, onde e como produzir. Outros enxergam nos petrodólares uma garantia de que infraestrutura e crédito virão em seguida.

Gonçalves planeja organizar investidores para voltar ao país com propostas formais. Ele vê espaço para café, frutas, hortaliças, laticínios e até pequenos produtores. “A estrada até Georgetown está em execução e o petróleo garante recursos. Vou ajudar no georreferenciamento para mostrar áreas aptas”, afirmou.

Apesar das incertezas, o governo insiste na convocação. “Os brasileiros têm experiência em larga escala com soja e milho. Precisamos disso aqui”, reforçou Mustapha.

Com informações de Gazeta do Povo