A manutenção do déficit público, mesmo diante de uma arrecadação recorde, transformou a situação fiscal no principal ponto de atenção para a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste ano eleitoral. Analistas, lideranças partidárias e órgãos independentes apontam que a combinação de gastos em alta e sucessivas medidas para ampliar a carga tributária pode comprometer a tentativa de reeleição do petista.
Arrecadação histórica não cobre o rombo
Em 2025, a receita federal alcançou R$ 2,887 trilhões, o maior valor já registrado. Apesar do crescimento de 1,35 ponto percentual acima do Produto Interno Bruto (PIB), que avançou 2,3%, o governo encerrou o ano com um déficit 32% superior ao de 2024.
Pacote tributário cresce: uma nova medida a cada 27 dias
Entre janeiro de 2023 e março de 2026, o Executivo editou 43 iniciativas para elevar ou criar tributos — média de uma a cada 27 dias. A mais recente, em março, impôs alíquota de 12% sobre a venda externa de petróleo bruto e de 50% sobre a de diesel.
Pressão eleitoral
Para o presidente do PSD, Gilberto Kassab, o aumento da carga tributária e os déficits recorrentes expõem a maior fragilidade do governo. “Houve aumento de carga tributária, e muito, nem sempre gerando receita. Muitas empresas estão se transferindo para países vizinhos em busca de impostos menores”, declarou à Folha de S.Paulo.
Já o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad minimizou o impacto da questão fiscal na disputa deste ano. Em entrevista no fim de 2025, classificou os alertas sobre crise das contas públicas como “delírios”.
Meta cumprida por meio de manobras
Embora o resultado de 2025 tenha ficado no limite permitido pelo arcabouço fiscal — banda de tolerância de 0,25 ponto percentual, cerca de R$ 31 bilhões — o cumprimento da meta só ocorreu após a retirada de quase R$ 50 bilhões em despesas, como precatórios, ressarcimentos a aposentados vítimas de fraudes do INSS, projetos de defesa e gastos temporários em educação.
“Taxa de agiota” nos juros
Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, afirmou à GloboNews que a fragilidade fiscal faz o país pagar “taxa de agiota” para se financiar. Segundo ele, a necessidade constante de empréstimos pressiona os juros, colocando o Brasil entre os maiores patamares do mundo.
Carga tributária elevada, retorno limitado
Dados da IFI indicam ser improvável a redução de gastos em 2026, ano de eleições, enquanto a criação de novos tributos deve continuar. Em 2025, a carga tributária bruta federal atingiu 32,4% do PIB. Estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) mostra que, entre os 30 países com maior peso de impostos, o Brasil tem o pior índice de retorno em serviços públicos, atrás de nações como Irlanda, Suíça, Estados Unidos, Austrália e Israel.
Com a arrecadação sustentada por medidas temporárias e sem cortes significativos nas despesas, economistas enxergam a situação fiscal como o principal obstáculo de Lula na busca por um novo mandato.
Com informações de Gazeta do Povo