Brasília – A alta global do petróleo elevou preços de combustíveis nos Estados Unidos e na Europa, mas o impacto no Brasil foi menor graças à infraestrutura de biocombustíveis construída desde a criação do Proálcool, em 1975. Com misturas obrigatórias mais altas de etanol e biodiesel, o país conseguiu limitar reajustes e reduzir a necessidade de importação de derivados fósseis.
Choque internacional encarece gasolina e diesel
O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã fechou o Estreito de Ormuz – rota de mais de 20% da produção mundial de petróleo – e levou o barril do Brent a US$ 120. Na sexta-feira (8), a cotação recuou para US$ 101,25, ainda 61% acima do nível registrado no mesmo período de 2024.
Nos EUA, a inflação ao consumidor subiu para 3,3% em março, puxada por um aumento de 10,9% nos custos de energia. A gasolina passou de US$ 4 por galão pela primeira vez desde agosto de 2022, com alta acumulada de 44%, enquanto o diesel chegou a 51% em determinadas regiões. Para tentar conter a escalada, o governo norte-americano liberou emergencialmente a venda de gasolina E15 (15% de etanol) em todo o território.
A Europa também sente o choque. A inflação anual da Zona do Euro atingiu 3% em abril; no grupo de energia, o avanço foi de 10,9%. O preço do diesel subiu 30% no bloco, e países como Suécia e República Tcheca registraram elevação superior a 25% apenas em março. Diante do cenário, a Comissão Europeia estuda dobrar a mistura de etanol na gasolina, de 10% para 20%.
Blindagem brasileira: etanol a 30% e frota flex
No Brasil, conforme o IBGE, o diesel aumentou 13,9% em março, a gasolina 4,59% e o etanol apenas 0,93% após o início das tensões no Oriente Médio. O país adota mistura de 30% de etanol anidro na gasolina (E30) — a mais alta do mundo — e possui 80% da frota de carros leves equipada com motores flex.
De acordo com o Ministério de Minas e Energia, a elevação da mistura de 27% para 30% acrescentou 1,5 bilhão de litros por ano à demanda de etanol, reduzindo na mesma proporção a necessidade de petróleo importado. No diesel, o porcentual obrigatório subiu de 15% para 16% (B16), substituindo entre 700 milhões e 800 milhões de litros de combustível fóssil anualmente.
Novas ampliações em discussão
O governo avalia aumentar a gasolina para E32 (32% de etanol). Anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fim de abril, a proposta depende de decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e pode valer ainda no primeiro semestre de 2026. A União da Indústria da Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Única) calcula que o novo porcentual elevaria a demanda por etanol anidro em mais 1 bilhão de litros por ano.
No diesel, entidades do setor e a Frente Parlamentar do Biodiesel defendem a adoção do B17 para diminuir a importação, hoje responsável por cerca de 30% do consumo nacional.
Biodiesel impulsiona soja e geração de empregos
Cerca de 80% da soja esmagada transforma-se em farelo e 20% em óleo. Sem um mercado amplo para o óleo, a expansão da cadeia ficaria limitada. O biodiesel absorve esse excedente e permite maior processamento do grão. A consultoria Safras & Mercado projeta 61,8 milhões de toneladas de soja processadas em 2026, 6% acima do ano passado.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), cada ponto percentual adicional na mistura de biodiesel eleva em 3,59% o número de empregos na cadeia e devolve R$ 4,40 à economia para cada R$ 1 investido.
Diversificação da matéria-prima
O etanol de milho já representa 28% da produção nacional, reduzindo a dependência exclusiva da cana. Empresas como Caramuru Alimentos e CJ Selecta avançam no uso de soja para fabricar etanol a partir de melaço excedente, processo que não compromete a oferta de alimentos, pois ocorre paralelamente à produção de farelo rico em proteína.
Da crise de 1973 ao modelo de exportação
A trajetória brasileira começou em 1975 com o Proálcool, resposta ao primeiro choque do petróleo, e ganhou novo impulso em 2003 com o lançamento dos motores flex. Hoje, o know-how nacional em biocombustíveis é exportado.
A Índia alcançou mistura de 20% na gasolina (E20) em 2025 e prepara regras para E85 e E100 com apoio técnico brasileiro. O Japão, que adotará E10 até 2030, assinou memorando com o Brasil em 2023 e prevê consumir 9 bilhões de litros anuais quando atingir E20 em 2040.
Com cinco décadas de investimentos em etanol e biodiesel, o agronegócio tornou-se peça central da segurança energética brasileira e referência para países que buscam reduzir a vulnerabilidade a choques do petróleo.
Com informações de Gazeta do Povo