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Controvérsia em torno da campanha da Igreja Universal que encerra no dia da eleição leva a denúncia no MPE

Edir Macedo lider fundador Igreja Universal
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A Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo, lançou em agosto uma campanha de 52 dias denominada “Desafio de Neemias”, que é apresentada aos membros como uma jornada de fé e reconstrução espiritual. No entanto, essa iniciativa gerou questionamentos de diversas entidades e grupos que suspeitam da utilização da estrutura da igreja para fins de mobilização política, especialmente com as eleições de 2026 se aproximando.

Um dos pontos que chama a atenção é a cronologia da campanha: ela teve início em 13 de agosto e se encerrará em 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições deste ano. Embora a Igreja Universal não mencione diretamente o pleito em sua apresentação oficial, matérias na mídia destacam que os temas abordados durante os 52 dias incluem expressões como “guardiões da família” e “governantes contra o povo”, o que levanta questões sobre possíveis ligações entre a mobilização religiosa e o cenário político.

O nome da campanha é uma referência ao livro bíblico de Neemias, que, segundo o Antigo Testamento, liderou a reconstrução dos muros de Jerusalém em 52 dias. A Universal utiliza essa narrativa como um símbolo para a campanha, onde os participantes recebem desafios diários e cada tarefa cumprida é vista como uma “pedra” adicionada a uma “muralha espiritual”.

Os fiéis interessados em participar precisam se cadastrar em uma plataforma relacionada ao projeto, onde acompanharão as metas e atividades propostas. Entre os objetivos anunciados estão a restauração dos valores cristãos e a proteção das famílias.

A campanha está sendo conduzida por lideranças da Universal, incluindo o bispo Alessandro Paschoall, que está associado ao projeto Arimateia, voltado para conscientização e participação política.

A presença da Igreja Universal na política não é uma novidade; a denominação já tem um histórico de participação em eleições e possui ligações com o partido Republicanos, que se originou de um grupo político vinculado à igreja. O Arimateia, sob a liderança de Paschoall, visa justamente estreitar a relação entre a fé e a participação política. Em materiais do projeto, a ideia de que religião e política devem permanecer separadas é contestada.

No lançamento do “Desafio de Neemias”, um dos temas abordados é a importância de “se importar”. Paschoall, em um vídeo gravado em Jerusalém, criticou o fechamento de templos religiosos durante a pandemia de Covid-19, argumentando que tal experiência deveria ser um alerta para evitar situações semelhantes no futuro. Essa referência à pandemia é significativa, pois a restrição de cultos gerou reações intensas entre setores religiosos alinhados ao governo de Jair Bolsonaro na época.

A campanha também despertou reações de entidades que questionam se a mobilização ultrapassa os limites de uma ação puramente religiosa. A Associação Movimento Brasil Laico apresentou uma denúncia à Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo, solicitando uma investigação sobre possíveis irregularidades relacionadas à atuação política da Igreja Universal. Entre os pontos levantados estão alegações de abuso de poder econômico e político, uso indevido de recursos, e coação de eleitores.

A denúncia ganhou destaque após reportagens sugerirem que o “Desafio de Neemias” poderia ser utilizado como uma ferramenta para mobilizar eleitores da denominação. A crítica mais incisiva afirma que a campanha pode estar explorando a vasta estrutura organizacional da Universal, que conta com uma ampla rede de templos e pastores, para engajar os fiéis durante o período eleitoral.

Algumas reportagens, como as da CartaCapital, chegaram a descrever a campanha como uma possível “máquina de engajamento eleitoral”. Relatos de pastores e ex-pastores da Universal, que falaram sob anonimato, indicam que o projeto tem, além do objetivo espiritual declarado, o propósito de reaproximar os fiéis dos candidatos associados à igreja e aumentar a mobilização eleitoral.

Uma investigação divulgada pelo ICL Notícias sugere que a campanha poderia ser usada para criar uma rede de apoio a candidatos da igreja, especialmente pastores e bispos que concorrem nas eleições de outubro. Outros relatos mencionam que os participantes são incentivados a expandir sua rede de contatos, recebendo tarefas e conteúdo ao longo dos 52 dias.

No entanto, essas alegações são baseadas em relatos de fontes e não constituem uma prova de que a campanha tenha cometido irregularidades eleitorais.

De acordo com a análise jurídica da Folha de S.Paulo, uma campanha de oração ou mobilização religiosa não configura, por si só, uma infração eleitoral. O advogado eleitoral Alberto Rollo comentou que iniciativas como o “Desafio de Neemias” podem ser realizadas por uma igreja durante o período eleitoral, desde que não incorporem práticas proibidas pela legislação, como o financiamento de candidatos ou a solicitação explícita de votos durante cultos.

Dessa forma, a coincidência entre a duração da campanha e o calendário eleitoral, embora gere questionamentos, não é suficiente por si só para caracterizar uma irregularidade. A questão principal reside no conteúdo que está sendo transmitido aos participantes e na possível utilização da estrutura da igreja para apoiar candidaturas.

A Igreja Universal foi contatada para comentar as alegações e esclarecer se o “Desafio de Neemias” tem alguma finalidade eleitoral, mas até o momento da publicação da reportagem, não havia respondido.

A ausência de uma resposta impede uma conclusão definitiva sobre a finalidade política que as entidades atribuem à campanha. Oficialmente, a iniciativa é apresentada como uma jornada de reconstrução espiritual inspirada em Neemias, e seguirá até 4 de outubro, data em que os eleitores brasileiros irão às urnas no primeiro turno das eleições de 2026.

O desdobramento do caso deverá ser acompanhado, visto que as atividades prosseguirão e novos conteúdos serão oferecidos aos participantes. O debate central será sobre até onde uma mobilização religiosa pode avançar durante o período eleitoral sem se tornar um instrumento de propaganda ou de mobilização política irregular.