Um ano após o início da operação Lança do Sul, mobilização militar dos Estados Unidos contra o narcotráfico no Caribe e no Pacífico, cartéis reorganizaram suas rotas e meios de transporte para continuar abastecendo o mercado norte-americano. A conclusão consta de um relatório da Agência de Combate às Drogas (DEA), revelado pelo jornal The Washington Post.
Pressão militar e números do primeiro ano
Lançada em meados de agosto de 2025 pelo governo Donald Trump, a operação é coordenada pelo secretário da Guerra Pete Hegseth. Desde setembro daquele ano, embarcações apontadas como ligadas a cartéis passaram a ser bombardeadas. Em 12 meses, foram contabilizados mais de 60 ataques e ao menos 221 suspeitos mortos.
Trump afirma que 98,2% do fluxo marítimo de drogas para os EUA foi interrompido.
Novas estratégias dos traficantes
De acordo com a DEA, os grupos criminosos:
- Intensificaram o uso de portos comerciais, escondendo grandes carregamentos em navios de carga;
- Navegam próximo à costa, fora de águas internacionais, o que dificulta a ação das forças norte-americanas;
- Aumentaram o emprego de aeronaves que decolam de pistas clandestinas na fronteira Colômbia-Venezuela;
- Pagam propina a autoridades colombianas para obter a localização de navios dos EUA, lançando a carga ao mar apenas após a retirada das patrulhas.
“Quando você aperta o balão de um lado, ele se expande do outro”, resumiu um agente da DEA ao Post.
Pureza e preço indicam oferta estável
Análises de lotes apreendidos pelo Pentágono apontaram altos níveis de pureza da cocaína, sinal de que os estoques não estão sendo diluídos. Pesquisadores da ONG Wola, Adam Isacson e John Walsh, destacaram que o preço nas ruas permanece entre US$ 60 e US$ 100 por grama, patamar semelhante ao verificado antes dos bombardeios.
Dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) mostram que as apreensões de cocaína em fronteiras terrestres, litorâneas e aeroportos cresceram 2% entre setembro de 2025 e junho de 2026 na comparação com os dez meses anteriores.
Casa Branca defende operação
A vice-secretária de imprensa Anna Kelly afirmou, em nota, que a ofensiva “eliminou narcoterroristas” e desestimula outros traficantes a tentar ingressar nos EUA “sob risco de destino fatal”. Segundo ela, sugerir ineficácia da operação é “ridículo”.
Especialista prevê mudança de foco
Para Ricardo Caichiolo, professor do Ibmec Brasília, Washington deve ampliar a ação naval para atacar redes terrestres e aéreas, além de combater a produção nos países de origem. Um indício foi a morte, em junho, de Niño Guerrero, líder do Tren de Aragua, durante operação aérea conjunta de Estados Unidos e governo venezuelano.
Alinhamento regional
Caichiolo avalia que a posse de presidentes com discurso de segurança, como Keiko Fujimori no Peru (28 de julho) e Abelardo de la Espriella na Colômbia (que assumirá em 7 de agosto), facilitará cooperação com os EUA. Segundo ele, isso deve abrir espaço para troca de inteligência, destruição de laboratórios, erradicação de cultivos de coca e interdição de pistas clandestinas.
As mudanças nas rotas e nos métodos dos cartéis, entretanto, indicam que o combate ao tráfico exigirá adaptações constantes das autoridades norte-americanas e de seus parceiros na região.
Com informações de Gazeta do Povo