Brasília – Relatórios da Polícia Federal apontam que o senador Jaques Wagner (PT-BA) manteve 74 ligações telefônicas com o empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, entre novembro de 2023 e 25 de maio de 2025. As interceptações, somadas, reuniram mais de cinco horas e meia de conversa.
Os documentos, antes sigilosos, foram divulgados na noite de 30 de julho pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator das investigações conhecidas como Caso Master. Segundo a PF, o diálogo entre parlamentar e empresário ia além de temas institucionais e era “marcado por manifestações de afeto e proximidade pessoal e familiar”.
Ligações privilegiavam voz para evitar registros
Investigadores observaram “nítida preferência” por chamadas de voz em vez de mensagens escritas. A esposa do senador, Maria de Fátima, e outros familiares participaram de conversas em um grupo de WhatsApp chamado “Família Brahia”, onde eram compartilhadas fotos e vídeos de momentos de lazer na Ilha da Paixão, na Bahia, propriedade controlada por Lima.
Em outubro de 2023, Wagner mandou áudio ao empresário confirmando a presença da mulher na ilha: “Bom dia, Guga. Tudo indica que Fatinha topa ir no sábado…”, diz o trecho transcrito no relatório. Em seguida, Lima providenciou o deslocamento aéreo e informou o prefixo da aeronave, “PT YNB”, com horário de decolagem às 10h30.
A PF cita outro episódio, em 28 de dezembro de 2024, quando Wagner perguntou se poderia contar com helicóptero para nova visita. Lima respondeu positivamente e avisou depois que a logística estava “resolvida”.
Orientação para evitar exposição
Durante encontro no Senado, Wagner sugeriu a Lima que chegasse ao gabinete ao meio-dia “para não chamar atenção” e ofereceu-se para buscar o empresário na portaria, dispensando identificação formal. Em viagens privadas, o controlador do Master, Daniel Vorcaro, recomendava aos pilotos usar hangares pouco conhecidos e, “se possível, nem apagar o motor”, para escapar de “conversa fiada”, relatou a PF.
Os investigadores enxergam nesses benefícios – uso de helicópteros, acesso à ilha e facilidades logísticas – possíveis “vantagens indevidas de natureza patrimonial e financeira” ligadas ao cargo de senador.
Operação Compliance Zero
Jaques Wagner foi alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero em junho deste ano. Na ocasião, a PF apreendeu US$ 55 mil, R$ 33 mil e relógios de luxo em endereços ligados ao parlamentar em Brasília e Salvador. O senador pediu afastamento da liderança do governo no Senado para, segundo ele, “provar sua inocência”.
O advogado Pablo Domingues afirmou que o dinheiro tem origem lícita: parte de diárias de missões oficiais ao exterior e parte de operações financeiras regulares, todas declaradas. “Não há nada a ocultar”, declarou, acrescentando confiar que o STF “corrigirá os equívocos”.
Com informações de Gazeta do Povo