Brasília – 24/07/2026 – A nova investida dos Estados Unidos contra governos de esquerda na América Latina intensificou o desgaste diplomático com o Brasil. Conduzida pelo secretário de Estado Marco Rubio, a estratégia concentra sanções e acusações sobre Cuba, Nicarágua e Venezuela e, de forma indireta, expõe antigas ligações de parte da esquerda brasileira com Havana.
Relatório cita apoio cubano a grupos armados
Na semana passada, durante encontro em Washington com representantes de dezenas de países, Rubio divulgou relatório do Departamento de Estado que recupera o histórico de cooperação de Cuba com organizações guerrilheiras, inclusive no Brasil. Segundo o secretário, “o terrorismo de extrema-esquerda foi ignorado por décadas pelas democracias ocidentais”.
A menção reacendeu o debate sobre vínculos mantidos por setores do PT e outros partidos com o regime cubano nos anos 1960 e 1970, justamente quando aumentam as divergências entre Brasília e Washington sobre a situação de Caracas e Havana.
Medidas econômicas reforçam atrito bilateral
A escalada política veio acompanhada de barreiras comerciais. Após tentativas frustradas de negociação, os EUA anunciaram em 23 de julho tarifa adicional de 12,5% contra produtos de 41 países, entre eles o Brasil, sob alegação de “trabalho forçado” na cadeia produtiva. O episódio sucedeu ameaça anterior de sobretaxa de 25% e foi classificado pelo Palácio do Planalto como “injusto e politicamente motivado”.
Rubio responsabilizou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo impasse e acusou o brasileiro de colocar “ego acima dos interesses do povo”. Lula reagiu, chamou o secretário de “latino-americano frustrado” e sugeriu motivação eleitoral pró-Flávio Bolsonaro, favorito da oposição para 2026.
Estratégia regional mira aliados de Cuba
Analistas ouvidos pela reportagem avaliam que a Casa Branca adotou política mais dura para isolar governos considerados autoritários. Além de sanções, Washington intensificou ações de inteligência, reformulou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e cogita bloquear financeiramente pessoas próximas aos regimes de Havana, Manágua e Caracas.
O cientista político Antônio Flávio Testa vê possibilidade de “intervenção velada” sobre atores brasileiros ligados a esses governos. Ele não descarta medidas contra o ex-presidente cubano Raúl Castro, que enfrenta processos na Justiça norte-americana.
Captura de Maduro eleva clima de incerteza
O ponto mais extremo da nova doutrina ocorreu em 3 de janeiro, quando forças dos EUA prenderam o venezuelano Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, sob acusação de narcotráfico e ameaça à segurança nacional. O episódio repercutiu no Brasil: em maio de 2023, Lula havia recebido Maduro com honras em Brasília e classificou as críticas ao vizinho como “narrativa”.
Especialistas alertam para ampliação de conceitos
Para Natália Fingermann, professora de Relações Internacionais da ESPM, ainda é cedo para concluir que políticos brasileiros estejam na mira direta de Washington. Entretanto, ela pondera que termos como “extrema-esquerda” e “terrorismo” podem ser alargados conforme conveniências estratégicas, afetando liberdades políticas na região.
A ofensiva norte-americana coincide com o avanço eleitoral de candidatos de direita na América Latina e reforça a disputa ideológica entre a gestão Lula e o governo Donald Trump, que tenta consolidar aliados liberais e conservadores no continente.
Com informações de Gazeta do Povo