Ancara — A Turquia, anfitriã da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) até quarta-feira (8), reacendeu nesta terça-feira (7) as tensões com Israel e criou novo foco de atrito para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em encontro bilateral na capital turca, Trump declarou que decidirá “em breve” se retomará a venda de caças furtivos F-35 a Ancara. O negócio foi bloqueado por Washington em 2019, depois que o governo turco adquiriu o sistema antiaéreo russo S-400.
A possível liberação preocupa Jerusalém. Em entrevista à emissora CNN, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a administração de Recep Tayyip Erdogan é “contaminada pela Irmandade Muçulmana” e que a entrega dos F-35 não transformaria a Turquia em aliada confiável dos Estados Unidos. “Ele ameaça destruir meu país, o único Estado judeu”, acrescentou.
Trocando farpas desde Gaza
Turquia e Israel intensificaram o confronto diplomático durante a guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, iniciada em outubro de 2023 e atualmente em cessar-fogo. Ancara:
- pediu para aderir à ação movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça (CIJ), que apura acusações de genocídio contra Israel;
- enviou carta à ONU solicitando embargo internacional de armas ao Estado israelense;
- comparou Netanyahu a Adolf Hitler e suspendeu o comércio bilateral;
- teve a Procuradoria-Geral de Istambul emitindo, em novembro de 2025, mandados de prisão contra 37 cidadãos israelenses, incluindo o premiê, por supostos crimes de guerra em Gaza.
No fim de junho, durante evento em Jerusalém, o ministro israelense da Diáspora, Amichai Chikli, classificou a Turquia de Erdogan, a Síria de Ahmed al-Sharaa e o Catar como “mais preocupantes que o Irã”, definindo o trio como novo “eixo da Irmandade Muçulmana”. Dias depois, Israel reconheceu como genocídio o massacre de armênios cometido pelo Império Otomano em 1915, irritando Ancara.
A retórica subiu mais um degrau na semana passada, quando o chanceler turco, Hakan Fidan, afirmou que Israel “virou um fardo que a humanidade não pode mais suportar”.
Pressão doméstica e internacional sobre Trump
O impasse surge pouco depois de Washington ter assinado, ao lado do Irã, um memorando para encerrar a guerra contra o regime iraniano iniciada em 28 de fevereiro, movimento que já havia provocado críticas israelenses. Agora, analistas apontam que a venda dos F-35 pode agravar o distanciamento entre Trump e Netanyahu.
Em artigo no “The Times of Israel” publicado nesta terça (7), o ex-militar Jose Lev Alvarez Gomez argumenta que as declarações de Erdogan vão além de mero discurso político e buscam construir um “eixo pan-sunita” liderado pela Irmandade Muçulmana. Segundo ele, com o poder iraniano debilitado, Ancara tenta preencher o vácuo no Oriente Médio, e Trump “precisa parar de fingir que laços mais estreitos com o sultão Erdogan atendem aos interesses americanos”.
O resultado da deliberação norte-americana sobre os caças deve ser anunciado após o término da cúpula da Otan.
Com informações de Gazeta do Povo