O governo brasileiro deu o primeiro passo para lançar sua dívida soberana no mercado chinês. Na semana passada, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, entregou ao presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, uma carta de intenções que prevê a emissão de até 5 bilhões de yuans (cerca de R$ 3,5 bilhões) em títulos conhecidos como panda bonds.
A iniciativa ocorre em meio ao interesse conjunto de Brasília e Pequim de reduzir a dependência do dólar. Enquanto o Palácio do Planalto vê na operação uma forma de diversificar fontes de financiamento e atenuar a volatilidade cambial, o governo chinês enxerga na estreia brasileira um novo impulso para ampliar o uso internacional do yuan.
China mira avanço geopolítico
Analistas ouvidos apontam que a emissão atende à estratégia de Pequim de diminuir a predominância do dólar no sistema financeiro global. Para Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da Apex-Brasil, os panda bonds funcionam como “ferramenta agressiva de financial statecraft”, ampliando a influência econômica chinesa sobre a maior economia da América Latina.
Coimbra avalia que, ao incentivar o endividamento soberano em sua moeda, a China transfere para o mercado brasileiro parte dos riscos de sua economia em desaceleração e torna o país mais suscetível às decisões de Pequim.
Liquidez limitada e endividamento em alta
O economista Igor Lucena, doutor em Relações Internacionais, ressalta que o principal ganho fica com a China, pois o yuan ainda oferece liquidez e conversibilidade menores que as moedas predominantes no mercado internacional. Segundo ele, a iniciativa reforça o discurso do presidente Lula em favor da desdolarização, mas não resolve a necessidade de recursos em um momento de forte expansão da dívida pública.
Dados do Tesouro Nacional mostram que a Dívida Pública Federal passou de R$ 8,798 trilhões em abril para R$ 9,033 trilhões em maio, avanço de 2,66%.
Reação nos Estados Unidos
A operação tende a gerar novos atritos com Washington. De acordo com Coimbra, o governo de Donald Trump interpreta o movimento não apenas como diversificação financeira, mas como um sinal de alinhamento político do Brasil ao principal rival estratégico dos Estados Unidos. Embora sanções sejam consideradas improváveis, a adoção dos panda bonds pode afetar projetos conjuntos em áreas de segurança e tecnologia de ponta.
A carta de intenções entregue em Pequim ainda precisa ser formalizada pelos órgãos reguladores dos dois países antes da emissão efetiva dos títulos.
Com informações de Gazeta do Povo