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Lula enfrenta cúpula do Mercosul com bloco mais à direita e cobrança por liderança na crise venezuelana

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Brasília / Assunção – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca nesta terça-feira, 30 de junho, em Assunção, para participar da cúpula do Mercosul diante de um cenário regional considerado o mais adverso desde o início de seu terceiro mandato. A virada eleitoral que levou conservadores ao poder em países do bloco e a resposta internacional ao terremoto que devastou a Venezuela reduzem o espaço de articulação do Palácio do Planalto.

Bloco com novo mapa político

Analistas apontam que Lula deixou de contar com maioria ideológica no Cone Sul. “Três anos depois de assumir, o Brasil passa a ser exceção dentro do próprio Mercosul”, avalia Yolanda Tolentino, especialista em política internacional pela FAAP e UFRJ. Hoje, Argentina, Chile, Equador e Peru são governados por presidentes de direita, o que dificulta agendas defendidas por Brasília em temas como integração política, direitos humanos e meio ambiente.

O encontro na capital paraguaia deve concentrar debates sobre a modernização do bloco e avanços em acordos comerciais com parceiros externos. Lula regressa a Brasília no mesmo dia para o lançamento do Plano Safra e, segundo a agenda oficial, não tem reuniões bilaterais previstas.

Ajuda humanitária como teste de influência

O terremoto na Venezuela adicionou pressão sobre o protagonismo brasileiro. Apesar do envio de três voos com 71 bombeiros, um hospital de campanha de 48 militares da Marinha, 100 purificadores de água e mais de 111,8 mil medicamentos, especialistas consideram que o volume ficou aquém da capacidade nacional.

“A velocidade e a escala da ajuda comunicam liderança”, observa o consultor de relações internacionais Cezar Roedel. Para o cientista político Elton Gomes, o governo “mostrou intenção, mas poderia ter mobilizado mais recursos”.

Competição humanitária

Outros países atuam em ritmo intenso. Os Estados Unidos liberaram um pacote de US$ 150 milhões, destacaram equipes de busca, 100 militares da Força Aérea, 130 fuzileiros navais, seis aeronaves C-17 e o navio USS Fort Lauderdale. A Argentina enviou bombeiros especializados, profissionais de saúde, equipamentos e ao menos três voos de suprimentos. El Salvador despachou cerca de 300 resgatistas e 50 toneladas de ajuda em seis voos.

Repercussões políticas

Enquanto Lula se reúne com chefes de Estado em Assunção, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto, esteve no domingo com o presidente argentino Javier Milei em Buenos Aires. O encontro reforçou a aliança conservadora na região e evidenciou o distanciamento entre Brasília e Buenos Aires desde a posse de Milei.

Para Yolanda Tolentino, o funcionamento por consenso transforma o Mercosul “cada vez mais em um acordo comercial”, esvaziando o projeto de integração política promovido historicamente pelo Brasil. Roedel acrescenta que a perda de aliados coloca em xeque a meta de Lula de recuperar o protagonismo internacional.

Com o bloco reposicionado à direita e a tragédia venezuelana em curso, a expectativa é de que a cúpula deste ano seja marcada por negociações pragmáticas e menor convergência política em torno das propostas brasileiras.

Com informações de Gazeta do Povo