A população do Japão encolheu 3.096.575 pessoas entre 2020 e 2025, segundo resultado preliminar do censo divulgado em 29 de maio pelo Ministério dos Assuntos Internos e Comunicações. O levantamento aponta 123.049.524 habitantes em 1º de outubro de 2025, uma retração de 2,5% e a maior redução registrada em um intervalo de cinco anos desde o início da série histórica, em 1920.
É também a primeira vez que o recuo ultrapassa a marca de 1 milhão em um único ciclo censitário — nas contagens de 2015 e 2020, as perdas ficaram abaixo desse patamar. A pasta atribuiu o resultado ao envelhecimento da sociedade e ao “decréscimo natural”, quando o número de óbitos supera o de nascimentos, e prometeu adotar “diversas medidas abrangentes” para enfrentar o problema.
Desafio para o governo Takaichi
O declínio populacional testa o gabinete da primeira-ministra conservadora Sanae Takaichi, no cargo desde outubro de 2025 e reconduzida em fevereiro após vitória expressiva do Partido Liberal Democrata (PLD). Ela já classificou a crise demográfica como “o maior problema” do país.
Para reagir, o governo acelerou um pacote pró-natalidade de US$ 22,5 bilhões (cerca de R$ 124 bilhões), que amplia auxílios financeiros a famílias com filhos, reforça licenças maternidade e paternidade e eleva o valor do benefício por criança. Outras propostas, como isenção fiscal para contratação de babás, incentivos a creches empresariais e redução de custos do pré-natal, ainda aguardam implementação.
Nascimentos em nível histórico mínimo
Números preliminares do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar indicam 705.809 nascimentos em 2025, o menor total desde 1899. Foi a décima queda anual consecutiva e uma retração de aproximadamente 30% em dez anos. O dado ficou abaixo da projeção de 774 mil partos para 2025 feita em 2023 pelo Instituto Nacional de Pesquisa sobre População e Seguridade Social (IPSS), que previa só para 2042 a chegada ao patamar de 700 mil.
O decréscimo natural atingiu recorde de 899.845 pessoas, 18º ano seguido em que mortes superam nascimentos. Atualmente, há cerca de duas mortes para cada nascimento no país.
Sinal positivo nos casamentos
O número de uniões subiu 1,1% em 2025 e superou novamente 500 mil pela primeira vez em três anos. A alta contrasta com pesquisas recentes que mostravam menor interesse dos jovens em casamento e filhos: levantamento da agência Hakuhodo em 2024 apontou que 35,4% das japonesas solteiras de 15 a 39 anos não desejam ter filhos e 20,2% não pretendem se casar.
Impacto na segurança nacional
Em estudo publicado em 2024, Tony Arnold, pesquisador do Instituto Nacional de Estudos de Defesa do Japão (NIDS), alertou que o envelhecimento populacional representa o principal desafio de segurança nacional do século 21. A redução da força de trabalho pressiona o orçamento militar e dificulta o recrutamento para as Forças de Autodefesa, justamente no momento em que Takaichi busca elevar gastos de defesa e revisar a Constituição pacifista diante da crescente presença chinesa na região.
Para o ano fiscal de 2026, o governo aprovou orçamento de defesa recorde de US$ 58 bilhões e antecipou em dois anos a meta de direcionar 2% do PIB ao setor, contemplando compra de mísseis de longo alcance, drones com inteligência artificial e desenvolvimento de caça de nova geração em parceria com Reino Unido e Itália.
Resistência à ampliação da imigração
Apesar de setores como construção, agropecuária, hotelaria e cuidados a idosos dependerem cada vez mais de estrangeiros, o governo evita ampliar a imigração permanente. O número de residentes estrangeiros atingiu quase 3,95 milhões no fim de 2025, pouco mais de 3% da população total.
Autoridades alegam que a presença de imigrantes onera os cofres públicos: dados de novembro de 2025 mostram pagamento de apenas 49,7% das contribuições previdenciárias devidas e 63% de adesão ao seguro saúde em 150 municípios até o fim de 2024. Casos de não pagamento de despesas médicas também foram registrados.
A estratégia oficial distingue trabalhadores temporários de residentes permanentes. O programa de Trabalhadores Qualificados Especificados bateu recorde em 2025, mas em janeiro o governo endureceu critérios para residência definitiva, exigindo histórico regular de impostos, previdência e seguro saúde.
Ministério multifuncional
Para centralizar iniciativas, Takaichi criou no ano passado um ministério dedicado à infância e à natalidade. A nova pasta, porém, acumula outras 11 atribuições, como disputas territoriais e segurança alimentar, o que levantou dúvidas sobre a prioridade efetiva dada ao tema.
Em sessão recente do Comitê de Orçamento da Câmara dos Deputados, a premiê admitiu que “a situação é extremamente grave” e que, após sete meses de mandato, ainda não conseguiu reverter a tendência de queda.
Com informações de Gazeta do Povo