Brasília — O prejuízo de R$ 3,16 bilhões acumulado pelos Correios entre janeiro e março de 2026 colocou a estatal na rota de um déficit anual possivelmente superior ao recorde de R$ 8,5 bilhões registrado em 2025. Diante do resultado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia liberar novos recursos, além do empréstimo de R$ 12 bilhões já contratado com garantia da União.
Plano de recuperação sob pressão
O programa lançado para recolocar a empresa no azul até 2027 previa reestruturação interna, venda de ativos e programas de demissão voluntária (PDVs). Mesmo assim, a sangria financeira continuou. No primeiro trimestre, a companhia obteve lucro bruto de R$ 153,4 milhões, mas o valor foi anulado pela alta das despesas administrativas, que saltaram de R$ 1,22 bilhão para R$ 2,27 bilhões em um ano, e pelo resultado financeiro negativo de R$ 636,9 milhões.
Consultorias especializadas apontam que as medidas adotadas aliviam o caixa apenas no curto prazo e não solucionam entraves estruturais. “O plano tapa um buraco imediato, mas não garante competitividade”, afirmou Rodrigo Barros, sócio da Andersen Consulting.
Desempenho recente
Após lucro de R$ 3,7 bilhões em 2021, a estatal passou a registrar seguidos déficits: R$ 768 milhões em 2022, R$ 597 milhões em 2023, R$ 2,6 bilhões em 2024 e o recorde de R$ 8,5 bilhões no ano passado.
Demissões voluntárias abaixo da meta
O primeiro PDV, encerrado em março, recebeu 3.181 adesões — menos de um terço da meta de 10 mil desligamentos — e deverá economizar cerca de 45% dos R$ 1,4 bilhão projetados. Um novo programa, direcionado a aproximadamente 5 mil empregados, está em estudo e pode cortar R$ 685,4 milhões em despesas até 2027, aliado ao fechamento de cerca de mil pontos de atendimento.
Risco para as contas públicas
Além dos R$ 12 bilhões já captados, o Executivo autorizou a contratação de até R$ 8 bilhões em nova operação de crédito. Especialistas como Murilo Viana, analista de contas públicas, alertam que a insistência em endividamento com aval do Tesouro eleva a exposição fiscal caso a estatal não consiga honrar as dívidas.
O Tribunal de Contas da União também apontou fragilidades na capacidade de pagamento da empresa e cobrou ajustes no plano de recuperação.
Resposta da estatal
Em nota, os Correios afirmaram que os resultados do primeiro trimestre estão dentro das premissas definidas na reestruturação. Segundo a empresa, a receita bruta somou R$ 4,04 bilhões e R$ 1,4 bilhão do prejuízo (44% do total) decorreu de passivos judiciais e precatórios.
A estatal informou ainda que as 3.756 adesões aos PDVs realizados entre 2024 e 2025 devem gerar economia de R$ 943 milhões em 2026. O ciclo iniciado este ano, com 3.181 desligamentos, promete reduzir R$ 685,4 milhões em despesas até 2027. O objetivo é restabelecer o equilíbrio econômico-financeiro e voltar ao lucro até o fim de 2027.
Com informações de Gazeta do Povo