Uma frente inédita formada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e por federações industriais tentou, nas últimas semanas, convencer o governo federal a encerrar as cotas de importação com alíquota zero para veículos eletrificados chineses.
A ofensiva, porém, não surtiu efeito. A Câmara de Comércio Exterior (Gecex) decidiu estender por mais seis meses, no valor total de R$ 2,4 bilhões, as cotas para a importação de veículos elétricos desmontados (CKD) e semidesmontados (SKD). A medida beneficia sobretudo a BYD, que desde 2025 conclui a montagem de seus automóveis no complexo de Camaçari (BA).
Cartas a Lula pedem volta imediata do imposto
No dia 19 de junho, a Anfavea enviou carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva solicitando a retomada do imposto de importação suspenso em julho de 2025. A entidade argumenta que a recomposição tarifária é “essencial” para preservar empregos qualificados e fortalecer a cadeia automotiva nacional.
Em tom semelhante, o presidente da CUT, Sérgio Nobre, encaminhou documento ao Palácio do Planalto em nome de centrais sindicais e sindicatos de metalúrgicos. Ele defendeu a anulação da portaria da Secretaria de Comércio Exterior que ampliou para US$ 463 milhões a cota de veículos elétricos desmontados com alíquota zero. Para os sindicatos, as montadoras beneficiadas “já tiveram plenas condições” de migrar para produção integral no país.
O Sindicato Nacional da Indústria de Componentes de Veículos Automotores (Sindipeças) também se manifestou. Em carta, o presidente Cláudio Sahad afirmou que o benefício gerou “tratamento não isonômico” às fábricas instaladas no Brasil e pressionou as vendas de modelos produzidos localmente.
Indústria ameaça rever R$ 140 bilhões em investimentos
Após a decisão do Gecex, a Anfavea divulgou nota criticando a prorrogação de um incentivo que, segundo a entidade, era temporário. A associação alerta que a mudança “coloca em xeque a confiança” das montadoras, que anunciaram aportes de até R$ 140 bilhões no país até 2033.
O Sindipeças acrescentou que a falta de previsibilidade pode levar ao corte ou adiamento de investimentos programados pela cadeia de autopeças.
Chinesas avançam e já somam 15% do mercado
Enquanto fabricantes tradicionais questionam o regime, as marcas chinesas ampliam presença no Brasil. BYD, GWM, Geely, Omoda & Jaecoo (grupo Chery) e GAC responderam por 15% dos emplacamentos de janeiro a maio de 2026, segundo a Fenabrave. A BYD sozinha alcançou 8,9% de participação, contra 5,4% no mesmo período de 2025.
O avanço acompanha investimentos de US$ 965 milhões realizados pelo setor chinês em 2025, de acordo com o Conselho Empresarial Brasil–China (CEBC). Além da BYD, a GWM iniciou operações em Iracemápolis (SP); a Geely comprou 26,4% da Renault do Brasil, prevendo R$ 680 milhões em aportes até 2027 no Paraná; e a GAC planeja produzir em Goiás.
Interesse do público também cresce
Dados do Google Trends mostram aumento expressivo nas buscas por montadoras chinesas em 2026. A Geely liderou a alta, com 450% de crescimento nas pesquisas comparedo ao ano anterior, seguida por Omoda (+250%), GAC (+160%), GWM (+60%) e BYD (+8%). Em volume absoluto, a BYD permanece no topo do ranking de interesse.
Apesar da mobilização de sindicatos e fabricantes nacionais, a prorrogação do incentivo permanece válida até o fim de 2026, mantendo o ambiente favorável às montadoras chinesas enquanto o setor tradicional revisa suas estratégias.
Com informações de Gazeta do Povo