A confirmação de um El Niño muito forte — apontado pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) na sexta-feira, 12 de junho — acende alerta no agronegócio e nos centros urbanos do Brasil. O órgão estima 63% de probabilidade de que a temperatura da superfície do Pacífico Equatorial ultrapasse 2 °C, patamar que colocaria o fenômeno entre os mais intensos desde 1950.
Pressão extra sobre um setor já fragilizado
Produtores rurais entram no novo ciclo em ambiente de endividamento recorde, juros altos e queda de rentabilidade. Segundo o Banco Central, os preços reais das commodities agrícolas recuaram, em média, 10,9% nos 12 meses até maio. Para Claudio Montoro, professor do Insper especializado em recuperações judiciais, o clima atua como “catalisador de riscos” num setor de margens comprimidas.
O impacto tende a variar conforme a região:
- Sul – Previsão de chuvas intensas, enchentes e maior incidência de doenças fúngicas.
- Norte e Nordeste – Projeção de estiagens severas, com reflexo direto sobre reservatórios de hidrelétricas.
- Centro-Oeste e Sudeste – Irregularidade hídrica, veranicos e calor mais frequente.
As culturas mais expostas são soja, milho, trigo, algodão e, em áreas específicas, café e cana-de-açúcar. Roberto Araújo, da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), avalia que o momento exige gestão profissional, uso intensivo de dados meteorológicos e contratação de seguro rural.
Indicadores de crédito deterioram
A Serasa Experian registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, alta de 56,4% ante 2024. Pequenos produtores lideram o movimento, com 853 solicitações. O índice de inadimplência no campo alcançou 8,2% no último trimestre de 2025, um ponto percentual acima do ano anterior. “Instituições estão mais seletivas e exigem garantias maiores”, afirma Marcelo Pimenta, diretor de agronegócio da consultoria.
Risco adicional nos fertilizantes
Conflitos na região do Estreito de Ormuz e no Irã reduziram o fluxo de adubos para o Brasil. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indicam queda de 4% no volume importado de fosfatados e nitrogenados entre janeiro-abril de 2025 e igual período de 2026, com aumento de 16% no gasto em dólares.
Reflexos imediatos na economia urbana
O Boletim Focus do Banco Central elevou as projeções de inflação há 13 semanas consecutivas; a estimativa para 2026 está em 5,11%, 0,6 ponto acima da meta. Analistas calculam que o fator climático pode acrescentar até 0,8 ponto ao IPCA do próximo ano.
No setor elétrico, a perspectiva de seca no Norte e no Nordeste ameaça os reservatórios das hidrelétricas, o que pode obrigar o acionamento de usinas térmicas — mais caras — e encarecer a conta de luz. Alimentos, especialmente carne e hortaliças, também tendem a sofrer reajustes.
Sem alívio previsível nos juros, o cenário de custos maiores em energia e alimentos eleva a chance de o Banco Central manter a Selic elevada por um período prolongado.
Com informações de Gazeta do Povo