Brasília — 18/06/2026. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma nova edição do programa Desenrola, desta vez direcionada a pessoas físicas e jurídicas que mantêm as contas em dia, mas enfrentam risco de inadimplência nos próximos meses. A medida, em fase final de elaboração pela equipe econômica, amplia a estratégia de renegociação de dívidas lançada em maio para trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos e débitos atrasados entre 90 e 360 dias.
Integrantes do governo admitem que a iniciativa faz parte de um pacote voltado a eleitores de centro — segmento apontado por estrategistas como decisivo em disputas presidenciais polarizadas. Segundo o consultor político Roberto Reis, esse grupo, formado por eleitores sem alinhamento ideológico firme, brancos, nulos e indecisos, representa cerca de 17% do eleitorado e deve balizar o resultado de 2026.
Mais de R$ 220 bilhões em estímulos
O novo Desenrola se soma a outras ações anunciadas nos últimos meses: ampliação do Minha Casa, Minha Vida para faixas superiores de renda, isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e linhas de crédito específicas para motoristas de aplicativo, taxistas e caminhoneiros. Juntos, esses programas já ultrapassam R$ 220 bilhões em estímulos, distribuídos entre crédito subsidiado, renegociação de dívidas, incentivos tributários e habitação.
Para João Mario de França, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o volume surpreende e pressiona as expectativas de inflação, juros e dívida pública. Ele alerta que a expansão, calcada em operações parafiscais e fundos garantidores, eleva o risco fiscal para o próximo governo e começa a lembrar o ambiente pré-crise fiscal do segundo mandato de Dilma Rousseff.
Efeitos eleitorais ainda tímidos
Apesar do desembolso bilionário, o Planalto ainda não colheu ganhos proporcionais nas pesquisas. Levantamento Genial/Quaest realizado de 5 a 8 de junho mostra aprovação ao governo em 47%, quatro pontos acima de abril, enquanto a desaprovação recuou de 49% para 48%. Na intenção de voto para o primeiro turno, Lula lidera com 39%, seguido por Flávio Bolsonaro (PL) com 29%. Num eventual segundo turno, o petista aparece com 44% contra 38% do senador.
Roberto Reis avalia que o efeito político das renegociações pode se dissipar até outubro de 2026, quando muitos eleitores ainda estarão pagando parcelas dos acordos firmados agora. Já o crédito concedido a motoristas de aplicativo prevê carência e só começa a ser quitado após as eleições, estratégia considerada “mais inteligente” pelo consultor.
Centro das atenções
Responsável pelo marketing da campanha, Sidônio Palmeira concentra esforços justamente no “eleitor do meio”. A equipe de Flávio Bolsonaro, por sua vez, aposta em uma eleição fragmentada para garantir vaga no segundo turno com cerca de 20% dos votos, apoiada em um núcleo duro estimado em 15% do eleitorado.
Enquanto o governo amplia os programas sociais e de crédito, o setor financeiro demonstra resistência ao novo Desenrola, ainda em negociação dentro da equipe econômica. Mesmo assim, o Palácio do Planalto segue acelerando anúncios para tentar consolidar apoio de segmentos tradicionalmente refratários ao PT, sobretudo a classe média urbana.
Com informações de Gazeta do Povo