O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, assinaram nesta quarta-feira (17 de junho) o Memorando de Islamabad, documento que estabelece um roteiro para pôr fim à guerra iniciada em 28 de fevereiro e solucionar impasses históricos entre os dois países.
Trump rubricou o texto no Palácio de Versalhes, na França, enquanto Pezeshkian fez o mesmo em Teerã. O memorando determina a interrupção imediata dos combates, a reabertura do Estreito de Ormuz e o levantamento do bloqueio naval norte-americano aos portos iranianos.
Meta: pacto definitivo em 60 dias
As partes comprometeram-se a negociar um acordo final em até 60 dias, com possibilidade de prorrogação por consenso. Entre os pontos mais sensíveis está a questão nuclear. O Irã reafirma que não buscará armas atômicas, e Washington e Teerã concordam em estabelecer um mecanismo conjunto, supervisionado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), para o descarte do material já enriquecido, incluindo a opção de diluição no local.
O documento também prevê tratar dos níveis de enriquecimento de urânio e de “outros assuntos” ligados às necessidades nucleares iranianas, a serem definidos no pacto final.
Trump demonstra otimismo
Durante a cúpula do G7, na França, o presidente norte-americano disse esperar que as tratativas avancem sem grandes obstáculos. “Temos um acordo fechado com o Irã, e ele deve ser bem-sucedido, passando para uma segunda etapa, que eu acho que será ainda mais fácil”, afirmou.
Décadas de impasse
A preocupação dos Estados Unidos e de Israel com o programa nuclear iraniano remonta a 1982, quando o recém-instalado regime dos aiatolás anunciou a construção de um reator em Isfahan. Em 2002, Washington acusou Teerã de tentar produzir armas nucleares, o que levou ao acordo internacional de 2015. Três anos depois, Trump retirou os EUA desse pacto e restabeleceu sanções.
Desde a volta de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, a pressão sobre o Irã aumentou. Instalações nucleares iranianas foram alvo de ataques dos EUA em apoio a Israel durante a Guerra dos 11 Dias, em junho de 2025, e novamente no fim de fevereiro de 2026, quando o atual conflito eclodiu.
Negociações “longas e difíceis”
Para Steven Cook, pesquisador do Conselho de Relações Exteriores (CFR), as conversas sobre o programa nuclear “serão longas e difíceis”. Já o coronel da reserva do Exército brasileiro e especialista em relações internacionais Marco Antonio de Freitas Coutinho avalia que “nada do que permanece pendente hoje é tecnicamente solucionável em apenas dois meses”, classificando o memorando como “instrumento político”.
Coutinho ressalta que o Irã não cedeu em pontos considerados essenciais, mesmo após bombardeios e a morte de cerca de 40 líderes iranianos – inclusive o então líder supremo Ali Khamenei, sucedido por seu filho Mojtaba. Segundo ele, Teerã deve continuar alegando fins pacíficos para seu programa nuclear.
Reflexos no Líbano
O documento assinado não inclui Israel, que combate o Hezbollah – aliado iraniano – no Líbano. Para Coutinho, a ofensiva israelense tende a prosseguir, pois o governo de Jerusalém já indicou que não se considera vinculado ao Memorando de Islamabad.
Apesar das incertezas, o texto firmado nesta quarta-feira marca a primeira tentativa formal de Washington e Teerã, desde 2015, de estabelecer um cronograma claro para resolver simultaneamente a crise militar em curso e a disputa nuclear que domina a relação bilateral há mais de quatro décadas.
Com informações de Gazeta do Povo