A liderança da Global Fellowship of Confessing Anglicans (Gafcon) oficializou, entre 3 e 6 de março de 2026, em Abuja, na Nigéria, a criação de uma nova estrutura eclesiástica que passa a atuar fora da órbita de Canterbury. O encontro reuniu 347 bispos de 27 províncias, além de 127 líderes leigos e clérigos, que aprovaram a Afirmação de Abuja, documento que rejeita os órgãos tradicionais da Comunhão Anglicana e propõe uma reorganização baseada em confissão de fé bíblica.
Rompimento com os instrumentos de comunhão
O texto aprovado acusa o Arcebispo de Canterbury, a Conferência de Lambeth, o Conselho Consultivo Anglicano (ACC) e a Reunião dos Primazes de “falharem em defender a doutrina bíblica”, permitindo, segundo os signatários, a “coexistência institucional” com províncias que abandonaram a autoridade das Escrituras. Ao declarar que tais instâncias “comprometeram gravemente” a Sé de Agostinho, os bispos anunciam que não participarão de futuras convocações feitas por Canterbury.
Questões de doutrina e sexualidade
A polêmica em torno da bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo é apontada como ponto de ruptura, mas a declaração sustenta que o problema é mais amplo, atingindo “a compreensão da autoridade bíblica e da doutrina cristã”. A recente condução da Igreja da Inglaterra, liderada por Justin Welby até outubro de 2025 e, depois, pela arcebispa Sarah Mullally, é citada como legitimação de “falso ensinamento”.
Comunhão confessional, não institucional
Inspirada na Declaração de Jerusalém (2008), nos Trinta e Nove Artigos e no Livro de Oração Comum de 1662, a nova Comunhão Anglicana Global afirma que a unidade virá da fé compartilhada, e não de estruturas administrativas. O documento sustenta que não há duas comunhões, mas “duas definições incompatíveis de comunhão”.
Liderança do Sul Global
O encontro elegeu o ruandês Laurent Mbanda como presidente do Conselho Anglicano Global, o brasileiro Miguel Uchôa como vice-presidente e o canadense Paul Donison como secretário-geral. A Gafcon diz representar grande parcela do anglicanismo ortodoxo em África, Ásia e América Latina.
Orientações práticas e apoio continuado
Os bispos recomendam que províncias e dioceses alterem, com o tempo, suas constituições para retirar referências a Canterbury, reconhecendo que o processo exigirá mudanças canônicas complexas. A nova comunhão também promete apoio a anglicanos que permaneçam em províncias consideradas revisionistas ou que se vinculem a jurisdições chanceladas pela Gafcon, como a Rede Anglicana na Europa.
A cisão coroa duas décadas de tensões que começaram em 2003, quando Gene Robinson foi consagrado primeiro bispo abertamente gay da Comunhão Anglicana, e que ganharam força com a fundação da própria Gafcon, em Jerusalém, em 2008.
Com informações de Folha Gospel