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Brasil mantém nível de abertura comercial equivalente ao padrão mundial de 1974, apontam especialistas

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O Brasil encerrou 2024 com uma abertura comercial de 35,6% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Banco Mundial, patamar igual ao registrado pela média global em 1974. Mesmo dentro da América Latina e Caribe, a marca brasileira está atrasada: a região alcançou índice semelhante em 1999.

Origem do fechamento

Analistas atribuem o isolamento ao modelo de substituição de importações instituído no país no final dos anos 1940 e início dos 1950. A política previa tarifas altas e restrições quantitativas para proteger a produção local até que ganhasse escala. Com o tempo, a proteção tornou-se permanente, reduzindo a concorrência.

“Criam-se mercados cativos e a indústria resiste à abertura”, afirma Lia Valls, pesquisadora do FGV Ibre e professora da UERJ. Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, o resultado é um ciclo de ineficiência: “Fica mais barato ir a Brasília pedir proteção do que investir em tecnologia”. O caso da informática nos anos 1980, limitada por reserva de mercado, ilustra o fenômeno.

Barreiras além das tarifas

Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) identificou, em março, 107 obstáculos não tarifários — como exigências sanitárias e regulamentos técnicos — aplicados principalmente por China, União Europeia, México e Estados Unidos. A falta de acordos e o alto “custo Brasil” também dificultam a expansão das exportações, ressalta José Augusto de Castro, presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Estudo da CNI com o Movimento Brasil Competitivo (MBC) calculou em R$ 1,7 trilhão, em 2021, o peso adicional desse custo para as empresas, influenciado por infraestrutura precária que encarece o transporte de mercadorias.

Dificuldade de participar das cadeias globais

A inserção em cadeias internacionais de valor é limitada porque importar insumos ainda é caro, explica Lia Valls. Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs), como a de Pecém (CE), começam a avançar, mas o país segue atrás de iniciativas semelhantes criadas há décadas na Ásia.

Setores que escapam à regra

O agronegócio se tornou exceção graças às condições naturais e ao investimento em pesquisa, capitaneado pela Embrapa. Já a Embraer mantém o Brasil relevante na indústria aeronáutica, liderando a fabricação de jatos regionais.

Acordo Mercosul-União Europeia

Assinado em janeiro de 2026 e em vigor provisório desde 1.º de maio, o tratado prevê que a União Europeia eliminará tarifas sobre 100% das linhas industriais e a maior parte dos produtos agrícolas em até dez anos. O Mercosul, por sua vez, zerará 81% das tarifas, com prazo de até 15 anos para setores sensíveis. Para Valls, o maior impacto será o acesso a máquinas e insumos mais modernos e baratos.

Quatro frentes para romper o isolamento

Especialistas defendem:

  • Redução tarifária gradual e previsível;
  • Corte do custo Brasil e maior segurança jurídica;
  • Melhorias em infraestrutura e logística;
  • Promoção de cultura exportadora e fortalecimento de marcas brasileiras.

Papel do Estado

Os analistas apontam que cabe ao governo sinalizar a abertura, evitar reservas de mercado e oferecer apoio à requalificação de trabalhadores afetados. Para José Augusto de Castro, o avanço depende mais de decisões estatais do que da iniciativa empresarial.

Ao reduzir barreiras e ampliar acordos, o país pode finalmente encerrar um atraso que já soma cinco décadas.

Com informações de Gazeta do Povo