Brasília – A Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), ligada ao Ministério dos Direitos Humanos, deve votar nas próximas semanas um relatório que aponta a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ocorrida em 22 de agosto de 1976, como resultado de um crime político organizado pela ditadura militar.
Relatório baseado em lacunas e contexto histórico
O documento foi elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão e, segundo apurações divulgadas pela Folha de S.Paulo, sustenta que JK representava ameaça ao regime ao articular, ao lado de João Goulart e Carlos Lacerda, uma Frente Ampla de oposição. A investigação retoma hipóteses descartadas em análises anteriores e adota o princípio jurídico in dubio pro victima – utilizado para proteger vítimas quando não há prova conclusiva.
Como foi o acidente
Na tarde de 22 de agosto de 1976, o Opala que levava Kubitschek, dirigido pelo motorista Geraldo Ribeiro, seguia pela Via Dutra em direção ao Rio de Janeiro quando atravessou o canteiro central e bateu de frente em um caminhão. A investigação original concluiu que o carro havia sido tocado por um ônibus da Viação Cometa que trafegava na faixa da esquerda.
Sinais de ameaça antes da colisão
Duas semanas antes do acidente, jornais publicaram, falsamente, que o ex-presidente havia morrido em outro desastre automobilístico. Ao desmentir a notícia, Kubitschek declarou: “Estão querendo me matar, mas ainda não conseguiram”.
Operação Condor e carta do serviço secreto chileno
A época também era marcada pela Operação Condor, aliança dos regimes militares da América do Sul para eliminar opositores. Em 1975, o chefe da polícia secreta chilena, Manuel Contreras, enviou ao então diretor do SNI brasileiro, João Figueiredo, carta em que classificava JK e o ex-chanceler chileno Orlando Letelier como ameaças à estabilidade regional. Letelier foi morto por explosão de carro em Washington em 21 de setembro de 1976, um mês após o acidente envolvendo Kubitschek.
Investigações anteriores e questionamentos técnicos
Entre 2013 e 2019, o Ministério Público Federal avaliou o caso e concluiu ser “impossível afirmar ou descartar” atentado, apontando “falhas severas” nos inquéritos de 1976. Laudos toxicológicos limitados, dúvidas sobre possível envenenamento do motorista e a hipótese de disparo de arma de fogo foram revisitados sem consenso.
Uma perícia recente do engenheiro de transportes Sergio Ejzenberg contestou a tese de choque com o ônibus. Em simulações em 3D, ele afirmou que relatórios do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), base da versão oficial, eram tecnicamente imprestáveis.
Efeitos práticos da possível mudança
Se aprovado, o parecer da CEMDP alterará as certidões de óbito de Juscelino Kubitschek e de seu motorista para registrar morte por motivo político. Prazos legais para indenizações já expiraram, de modo que a medida terá sobretudo caráter histórico e simbólico, à semelhança do que ocorreu em 2025 com a retificação do documento do deputado Rubens Paiva.
Com informações de Gazeta do Povo