Brasília — Quem vencer a eleição presidencial de outubro herdará uma fatura bilionária provocada pela escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã. Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, os efeitos do conflito turbinam a arrecadação deste ano, reduzem temporariamente o déficit primário, mas agravam o desequilíbrio das contas públicas a partir de 2027.
Déficit encolhe em 2026, mas melhora é “ilusória”
Antes da guerra, a IFI projetava um rombo de 0,7% do Produto Interno Bruto para 2026 — o pior resultado em anos. Com o petróleo mais caro e a inflação acelerada, a estimativa passou a 0,1% do PIB. O órgão ressalta, porém, que a melhora depende da manutenção das tensões no Oriente Médio e de receitas extraordinárias que não se repetirão.
Pacote emergencial de Lula
Para conter o salto no preço do diesel, que subiu 21,2% nas bombas até a terceira semana de abril, o governo editou medidas provisórias e abriu linhas de crédito:
- MP 1.340/2026: subvenção ao diesel de até R$ 10 bilhões até 31 de dezembro;
- MP 1.349/2026: cooperação federativa e subsídio ao GLP de até R$ 850 por tonelada importada;
- Setores críticos: crédito de R$ 1 bilhão para companhias aéreas, adiamento de tarifas de navegação aérea e corte de PIS/Cofins sobre biodiesel e querosene de aviação.
Compensação contestada na Justiça
Para bancar o pacote, o Planalto instituiu imposto de 12% sobre exportação de petróleo bruto e elevou o IPI sobre cigarros. A cobrança chegou a ser suspensa, mas foi restabelecida pelo Tribunal Regional Federal da 2.ª Região. Caso uma instância superior volte a derrubar a alíquota, a perda de receita pode variar de R$ 14,8 bilhões a R$ 16,5 bilhões, alerta a IFI.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Rena, afirma que parte do montante captado com a nova alíquota apenas antecipa ingressos que já chegariam ao Tesouro via dividendos e tributos sobre lucro.
Impacto fiscal do pacote
De acordo com cálculos da IFI, as iniciativas emergenciais custam R$ 34,7 bilhões até agosto. Descontadas as compensações, o impacto líquido recua para R$ 15,7 bilhões — valor considerado “acomodável”, mas sujeito a grande incerteza.
Vulnerabilidade energética
Sem estoques estratégicos de petróleo, o Brasil importa 25% do diesel, 10% da gasolina e 17% do querosene de aviação. A dependência externa, lembra Bruno Fernandes, da Coface, é resultado de anos de baixa capacidade de refino e armazenagem.
Inflação maior hoje, gastos maiores amanhã
A alta do barril pressiona transportes, alimentos e demais preços. As projeções para o IPCA de 2026 saltaram de 3,91% para 4,8%. Como mais da metade das despesas federais é indexada ao salário mínimo, o avanço da inflação eleva benefícios previdenciários, seguro-desemprego e abono salarial em 2027 — o chamado “efeito catraca”.
A IFI calcula que os gastos primários pularão de R$ 2,65 trilhões em 2026 para R$ 2,82 trilhões em 2027. O déficit poderá ser seis vezes maior que o de 2026, ameaçando o novo limite de gastos e reduzindo espaço para investimentos em infraestrutura, saúde e educação.
Postura do Banco Central
Economistas veem chance de o Banco Central manter juros elevados por mais tempo para conter a propagação dos choques de oferta. A taxa Selic alta tende a frear o investimento privado e pode puxar a taxa de desemprego para cima em 2027, elevando ainda mais as despesas obrigatórias.
Com a combinação de receitas temporárias, indexação de despesas e risco jurídico sobre a taxação das exportações, analistas concluem que o aparente alívio em 2026 adia, mas não resolve, o desafio fiscal que ficará para o próximo governo.
Com informações de Gazeta do Povo