Imagens de satélite registradas no último domingo confirmaram a demolição de duas igrejas cristãs históricas em Stepanakert – cidade que os azerbaijanos chamam de Khankendi – principal centro urbano de Nagorno-Karabakh, região retomada pelo Azerbaijão em setembro de 2023.
O principal edifício afetado é a Catedral da Santa Mãe de Deus, erguida a partir de 2006 e consagrada em 2019. Durante as ofensivas do Azerbaijão na década de 2020, o porão da catedral serviu de abrigo antiaéreo para moradores locais. Cercas de obra foram vistas ao redor do templo no início de fevereiro, e os registros indicam que a estrutura foi derrubada no começo de abril.
Outra construção religiosa atingida foi a Igreja de São Jacó, concluída em 2007 com recursos de um filantropo armênio-americano em memória do filho falecido. As fotos de satélite mostram o local completamente destruído, assim como as khachkars (cruzes de pedra) que ficavam no terreno.
Justificativas e reações
O Conselho Muçulmano do Cáucaso, órgão religioso ligado ao governo azerbaijano, reconheceu a demolição planejada pelo Estado. Segundo a entidade, os templos teriam sido construídos “ilegalmente” durante a “ocupação armênia” do território e, portanto, não configurariam patrimônio cultural a ser preservado.
A Santa Sé de Etchmiadzin, autoridade máxima da Igreja Apostólica Armênia, rebateu a versão oficial e acusou Baku de conduzir uma campanha para apagar a herança religiosa armênia em Nagorno-Karabakh. O Conselho Muçulmano classificou a acusação como “hostilidade e desinformação”.
No Parlamento do Azerbaijão, a deputada Elnare Akimova chamou as denúncias de “provocação de forças revanchistas” e afirmou que o país adota política de preservação de monumentos históricos e religiosos.
Questionamentos sobre patrimônio
Lernik Hovhannisyan, presidente do Conselho Diocesano de Artsakh – instância administrativa da Igreja Armênia na região – contestou o argumento de ilegalidade. Ele lembrou que os armênios sempre formaram a maioria em Stepanakert e afirmou que a presença azerbaijana foi estimulada apenas a partir da década de 1960. O líder religioso também citou outras igrejas históricas já destruídas em Shushi, como as de Hora Verde e de Mokhrenes, erguidas entre os séculos XVIII e XIX.
Contexto político
A polêmica ocorre às vésperas das eleições parlamentares da Armênia. Críticos acusam o primeiro-ministro Nikol Pashinyan de não pressionar a comunidade internacional contra Baku. Pashinyan afirmou que seu governo coleta informações, mas evitou condenar publicamente o Azerbaijão, alegando tratar-se de “tema de faca de dois gumes”.
Desde a ofensiva que resultou no controle total de Nagorno-Karabakh, cerca de 120 mil armênios étnicos deixaram a região. Armênios capturados durante os confrontos permanecem detidos no Azerbaijão.
Em publicação na rede X, Nadine Maenza, ex-presidente da Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF), classificou a destruição dos templos como “genocídio cultural” após o êxodo armênio.
Com informações de Folha Gospel