Cairo (Egito) – O julgamento de Said Mansour Rezk Abdelrazek, egípcio que abandonou o islamismo para seguir o cristianismo, começou na semana passada no Primeiro Circuito Criminal de Terrorismo, em Badr, zona leste da capital.
Detido desde julho sob acusações de terrorismo, Abdelrazek responde por supostamente fundar e liderar um grupo ilegal, financiar a organização, propagar ideias consideradas ofensivas ao Islã e “ameaçar a unidade nacional”. A apostasia não é crime no Egito, mas alterar a religião em documentos de identidade, objetivo declarado do réu, é praticamente impossível e costuma ser enquadrado como questão de “segurança nacional”.
Defesa pede mais tempo
Em 21 de abril, a equipe jurídica – formada pela Iniciativa Egípcia para os Direitos da Pessoa, pela Comissão Egípcia para os Direitos e Liberdades e pelo escritório do advogado de cassação Saeed Fayez – solicitou o adiamento para preparar a estratégia de defesa. O tribunal marcou a próxima audiência para 15 de junho.
Relatos de maus-tratos
Abdelrazek permanece na prisão 10 de Ramadan, no Cairo. Segundo Coptic Solidarity, ele tem sido privado de alimentação adequada, roupas e atendimento médico, além de ficar pendurado por horas em posição semelhante à crucificação.
A Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF) classificou o egípcio como “prisioneiro de consciência”, afirmando que ele sofre abusos físicos e psicológicos desde a detenção. Em 22 de julho, a Procuradoria Suprema de Segurança do Estado o acusou de desprezo pelo Islã, participação em organização terrorista proibida, incitação à desordem e divulgação de informações falsas.
Fuga, deportação e novo encarceramento
Converso desde 2016, Abdelrazek deixou o Egito em 2019 rumo à Rússia para pedir asilo religioso. Em 2023, foi preso por um vídeo privado considerado ofensivo ao Islã e, em 2024, deportado para o Egito, apesar de possuir documentação do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Após dez dias incomunicável, foi liberado sob a condição de não falar publicamente sobre sua fé.
Em julho de 2025, voltou a ser preso sem mandado depois de retomar postagens cristãs nas redes sociais e buscar auxílio jurídico para mudar a filiação religiosa em seus documentos. O egípcio afirma ter sido forçado a remover uma tatuagem cristã e novamente suspenso em posição de crucificação.
Pedido de visto para a Austrália
Desde maio de 2024, Abdelrazek aguarda resposta a um pedido de visto humanitário para a Austrália, onde vive sua noiva, cidadã australiana. Em 26 de janeiro, o Instituto de Estudos de Direitos Humanos do Cairo enviou carta ao governo australiano, solicitando intervenção diplomática imediata e reforçando que a prisão contraria o artigo 64 da Constituição egípcia, que garante liberdade de crença.
O Egito ocupa a 42ª posição na Lista Mundial da Perseguição 2026 da organização Portas Abertas, ranking dos países onde a vida cristã enfrenta maiores obstáculos.
Com informações de Folha Gospel