Brasília – 17/04/2026, 17h05. A colaboração premiada do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, enfrenta um impasse decisivo: localizar e bloquear recursos estimados em até R$ 40 bilhões espalhados dentro e fora do país.
A Polícia Federal (PF) apura uma rede de fundos que passa por paraísos fiscais e jurisdições de supervisão frágil, como China e Emirados Árabes Unidos. No caso chinês, o desafio ganhou nova dimensão depois que, em junho de 2025, o Banco Master tornou-se o primeiro banco brasileiro a aderir ao Cross-Border Interbank Payment System (Cips), plataforma de transferências internacionais em yuan criada como alternativa às redes financeiras ocidentais.
Menos transparência que o Swift
Fontes ouvidas pela reportagem apontam que o Cips opera com menor padronização de supervisão e transparência do que o sistema global Swift. Para o advogado criminalista Washington Fonseca, professor do Ibmec em Investigações Corporativas, isso reduz a possibilidade de cooperação com órgãos estrangeiros, como o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. “Rastrear esse dinheiro na China pode ser como procurar agulha no palheiro”, resume.
O especialista em direito penal econômico Fábio Solto avalia que a escolha do Cips revela intenção de atuar “mais nas sombras”. Segundo ele, estruturas paralelas, inclusive em bancos digitais, permitem mover valores sem visibilidade regulatória por meio de contas matrizes que concentram múltiplas transações.
Cooperação internacional limitada
Para rastrear e repatriar ativos transitados pelo Cips, autoridades brasileiras dependeriam de grau elevado de cooperação com o governo chinês. “A China centraliza os dados e não demonstra interesse em expor seus clientes”, diz Solto.
Carlos Henrique, CEO da fintech Sttart Pay, afirma que o desfecho do caso dependerá da robustez dos controles internos do Banco Master e da atuação dos reguladores, o que pode transformar o episódio em teste prático para o próprio Cips.
Risco de dispersão dos valores
Investigadores alertam que a demora para formalizar a delação pode facilitar o desaparecimento dos recursos, sobretudo se estiverem em nome de terceiros. Vorcaro precisará indicar a localização de seu patrimônio, não esconder valores e aceitar devolver quantia substancial para obter benefícios penais.
A defesa do ex-banqueiro negocia uma colaboração que inclui possíveis menções a figuras de alto escalão, entre elas ministros do Supremo Tribunal Federal. Apesar de haver elementos para que a PF aceite o acordo, especialistas observam que o avanço dependerá de decisão política, já que o detalhamento das operações pode alcançar autoridades no centro da República.
Com informações de Gazeta do Povo