Brasília — Dois documentos divulgados nesta quarta-feira (1º) por órgãos do governo dos Estados Unidos ampliaram a pressão sobre o Brasil e expuseram fricções na relação entre Washington e o governo Luiz Inácio Lula da Silva.
USTR aponta barreiras comerciais e cita Pix
O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) publicou relatório resultante de investigação aberta em 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana. O texto classifica o ambiente regulatório brasileiro como “pouco previsível” e lista entraves enfrentados por companhias americanas:
- tarifas consideradas elevadas para produtos estrangeiros;
- sistema tributário complexo;
- licenciamento de importações e exigências técnicas vistas como pouco transparentes;
- circulação de itens falsificados e pirateados, com menção à região da Rua 25 de Março, em São Paulo;
- propostas legislativas que afetam plataformas digitais;
- preocupação com eventual favorecimento ao sistema de pagamentos Pix em detrimento de empresas internacionais.
A investigação pode sustentar novas tarifas ou outras restrições a produtos brasileiros, segundo o próprio USTR.
Câmara dos EUA critica decisões do STF
Paralelamente, o Comitê Judiciário da Câmara norte-americana divulgou relatório que acusa o Judiciário brasileiro de adotar “modelo de censura com alcance global”. O documento cita decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinaram remoções de conteúdos e perfis em redes sociais fora do território brasileiro, alcançando inclusive usuários nos Estados Unidos.
Entre os casos destacados estão restrições a postagens de cunho político e medidas que envolveriam os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro: o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, hoje radicado nos EUA, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Departamento de Estado manifesta preocupação
Em nota enviada ao portal Metrópoles, o Departamento de Estado declarou ter “sérias preocupações” com decisões judiciais brasileiras que limitam a liberdade de expressão online e o acesso à informação, além de apontar eventuais ações do governo Lula para suprimir opiniões desfavoráveis.
Reações e possível escalada
Eduardo Bolsonaro afirmou que os relatórios mostram a atenção de Washington ao cenário eleitoral brasileiro e classificou as manifestações como indício de “perseguição e censura” no país. Para o estrategista internacional Cezar Roedel, a combinação entre a investigação comercial e as críticas à liberdade de expressão pode levar a sanções direcionadas a setores específicos da economia ou a autoridades brasileiras.
A economista Adriana Melo acrescenta que serviços digitais e regras comerciais sensíveis estão entre os alvos mais prováveis de medidas retaliatórias.
Outros pontos de atrito
O governo Trump estuda classificar as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, o que abriria espaço para bloqueio de ativos e sanções financeiras a integrantes dos grupos. Fontes do Itamaraty veem a iniciativa com preocupação.
Contexto de instabilidade bilateral
Em 2025, Washington já havia aplicado tarifas adicionais de até 50% a produtos brasileiros, revogado vistos de ministros do STF e sancionado Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky — medidas depois parcialmente revistas. Uma reunião bilateral entre Lula e Donald Trump, cogitada para março, foi adiada devido ao conflito entre EUA e Irã e segue sem nova data.
Diante das críticas mais recentes, autoridades brasileiras admitem que a pressão pode crescer nos próximos meses. Até o fechamento desta reportagem, o Ministério das Relações Exteriores não se pronunciou.
Com informações de Gazeta do Povo