Kiev – Enquanto combate tropas russas há mais de quatro anos, a Ucrânia passou a atuar também no conflito iniciado há três semanas entre Estados Unidos, Israel, países árabes aliados do Ocidente e o Irã. O governo ucraniano está compartilhando know-how para neutralizar os drones Shahed, de fabricação iraniana, que se tornaram a principal ameaça aérea na região.
Na semana passada, Rustem Umerov, presidente do Conselho de Segurança e Defesa Nacional da Ucrânia, informou em seu canal no Telegram que militares ucranianos já operam Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Kuwait e Jordânia. Segundo ele, foram criadas unidades de interceptação voltadas à proteção de infraestrutura civil e estratégica, e a rede de cooperação será ampliada.
Em publicação na rede X, o presidente Volodymyr Zelensky acrescentou que Kiev fornece avaliações técnicas e ajuda a montar um sistema regional de defesa aérea. O líder ucraniano afirmou ainda ter recebido dos Estados Unidos pedidos de apoio especializado em duas áreas adicionais do Oriente Médio e estar analisando solicitações de parceiros europeus com tropas na região.
“A Ucrânia está comprometida com a rápida estabilização da situação no Irã, crucial para os mercados globais de petróleo e gás, sobretudo para a Europa e para nós mesmos. Não aceitaremos qualquer êxito da campanha terrorista do regime iraniano, aliado de longa data da Rússia”, escreveu Zelensky.
Escassez de mísseis Patriot no horizonte
Em entrevista à BBC, Zelensky alertou que a ofensiva no Oriente Médio pode pressionar os estoques de armamento americano. “Os Estados Unidos produzem de 60 a 65 mísseis por mês, algo entre 700 e 800 por ano. Só no primeiro dia dessa guerra foram disparados 803 mísseis”, observou, prevendo déficit de sistemas Patriot em futuro próximo.
Benefício para Moscou
O coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho concorda com a avaliação de que o prolongamento do conflito favorece a Rússia, grande exportadora de combustíveis fósseis. “Quanto mais a guerra se estender, maior o uso de mísseis antiaéreos e drones que deixariam de ser vendidos à Ucrânia. Além disso, a atenção mundial se volta ao Irã, reduzindo a pressão por ajuda a Kiev”, explicou.
Valor estratégico de Kiev para Washington
Para o professor de relações internacionais Frederico Dias, do Ibmec Brasília, a cooperação mostra que a Ucrânia “não é só receptora de assistência, mas produtora de conhecimento militar em uma área emergente – a guerra de drones”. O também professor Eduardo Galvão avalia que, ao entrar na agenda prioritária dos EUA, Zelensky tenta garantir a continuidade dos repasses militares e influenciar as negociações mediadas por Washington com Moscou, embora veja “limites” nessa estratégia.
Em dezembro do ano passado, Zelensky reuniu-se com o presidente americano, Donald Trump, na Flórida. Na ocasião, Trump reclamou da “falta de contribuição” de membros da Otan nas operações no Oriente Médio, o que, segundo analistas, torna a oferta ucraniana ainda mais relevante.
Com informações de Gazeta do Povo