São Paulo, 23 de março de 2026 – O agravamento do conflito no Oriente Médio criou um gargalo logístico para a pecuária brasileira, ameaçando cerca de US$ 2 bilhões em exportações anuais de carne bovina halal, produto destinado a países de maioria muçulmana e que segue rígidas regras de abate determinadas pela lei islâmica.
O fechamento parcial do Estreito de Ormuz desde fevereiro, provocado por ataques a embarcações e novas ameaças de ofensivas, reduziu drasticamente o fluxo de navios na região. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) calcula que até 40% das remessas brasileiras de carne bovina podem ser afetadas, o equivalente a um potencial de US$ 6 bilhões em cargas por ano que transitam pela área.
Companhias marítimas suspenderam reservas de contêineres com destino ou passagem pelo estreito e passaram a cobrar a chamada “taxa de guerra”, que pode chegar a US$ 4 mil por contêiner, segundo a Abiec. Há navios carregados com carne bovina aguardando liberação para atracar em portos do Golfo, aumentando o risco para produtos refrigerados, mais sensíveis a atrasos.
Brasil é líder global em proteína halal
Dados do relatório State of the Global Islamic Economy 2024/25 mostram que o mercado mundial de alimentos halal movimenta US$ 1,43 trilhão anuais e pode chegar a US$ 1,94 trilhão em 2028. O Brasil é o terceiro maior exportador de produtos halal, com US$ 26,9 bilhões, atrás de China e Índia, e lidera as vendas internacionais de carne bovina com certificação halal, de acordo com a Abiec.
Entre 2023 e 2024, as indústrias brasileiras aumentaram em mais de 65% o volume destinado a consumidores muçulmanos, passando a representar quase 20% de toda a carne exportada pelo país. Em 2025, o embarque médio chegou a 40 mil toneladas por mês, somando mais de US$ 160 milhões em receita mensal.
Investimentos em expansão ameaçados
Para atender à demanda crescente, frigoríficos brasileiros reforçaram sua presença no Golfo. A JBS inaugurou em janeiro uma fábrica de 41 mil m² na Arábia Saudita, planejada para dobrar a produção a 30 mil toneladas até o fim deste ano. Já a BRF formou a joint venture Sadia Halal com a Halal Products Development Company (HPDC), incorporando unidades e centros de distribuição na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Omã.
Com o impasse logístico, a Abiec alerta que indústrias podem suspender ou reduzir o abate de cortes específicos enquanto aguardam normalização do transporte. Cerca de 95% da carne enviada ao Oriente Médio é congelada e depende do modal marítimo; o restante, refrigerado, enfrenta risco ainda maior de perdas caso os navios permaneçam parados.
Se o conflito se prolongar, o setor projeta interrupções no fluxo de exportações, impacto sobre o processamento industrial e reflexos em toda a cadeia pecuária brasileira.
Com informações de Gazeta do Povo