Brasília — O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quarta-feira (18) na Câmara dos Deputados que a Declaração de Teerã, costurada por Brasil e Turquia em 2010 sob liderança do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), poderia ter impedido a escalada de conflitos envolvendo o Irã.
Segundo Vieira, se o acordo tivesse prosperado, Teerã enviaria cerca de 1.200 kg de urânio de baixo enriquecimento para a Turquia, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), e receberia combustível nuclear em troca. “O mecanismo reduziria o estoque sensível do Irã e construiria confiança, evitando o cenário em que o mundo se encontra hoje”, declarou o chanceler.
Críticas aos Estados Unidos
Convocado para explicar a política externa brasileira, Vieira disse ver um “padrão” em mediações internacionais conduzidas ou abandonadas pelos EUA. Ele citou conversas recentes no Oriente Médio, nas quais Omã atua como mediador, e lembrou que, em 2010, Washington inicialmente apoiou a iniciativa brasileira — inclusive com carta pessoal do então presidente Barack Obama — mas depois recuou e rejeitou o texto.
Documentos vazados pelo WikiLeaks mostram que diplomatas norte-americanos já percebiam, desde 2005, tentativas do então chanceler Celso Amorim de atrapalhar resoluções da ONU que vinculavam o Irã à proliferação nuclear. Um telegrama de 2008 apontava preocupação de Washington com a crescente aproximação de Teerã na América Latina, inclusive no Brasil.
Ceticismo internacional
Para Cezar Roedel, estrategista internacional e doutor pela PUCRS/UniBonn, a proposta brasileira foi vista como “fraca” pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Ele observa que o texto não restringia o contínuo enriquecimento de urânio pelo Irã nem assegurava inspeções robustas. “Na prática, o programa nuclear iraniano avançou mesmo após a declaração, revelando impacto limitado”, avaliou.
Roedel comparou o episódio ao Acordo de Munique de 1938, quando promessas de paz não impediram o avanço nazista. “Declarações desse tipo raramente se cumpriram historicamente”, disse.
Contexto atual
Vieira argumentou que, ao rejeitar a Declaração de Teerã em 2010, as potências desperdiçaram oportunidade de controlar o acúmulo de material nuclear iraniano. “Seria improvável estarmos diante da atual crise se aquele entendimento tivesse seguido adiante”, sustentou.
O ministro também citou frustração semelhante relatada por autoridades omanenses, que hoje tentam mediar o impasse entre Irã, Estados Unidos e outros atores regionais. “As semelhanças revelam um comportamento recorrente”, concluiu.
Com informações de Gazeta do Povo