Uma faixa de terra de 20 quilômetros quadrados no Golfo Pérsico concentra até 90% das exportações de petróleo do Irã e pode se tornar o próximo alvo militar de Estados Unidos e Israel. A Ilha de Kharg abriga o principal terminal petrolífero iraniano e, segundo analistas, a perda do território colocaria em risco a sustentabilidade financeira do regime em Teerã e da Guarda Revolucionária.
Terminal sustenta fluxo de caixa externo
De acordo com João Alfredo Lopes Nyegray, professor de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Kharg representa o “gargalo físico” que liga o país à maior fatia de receitas em moeda estrangeira. A estrutura possui grande capacidade de armazenamento, permitindo ao Irã organizar embarques mesmo sob pressões externas.
Ricardo Caichiolo, diretor do Ibmec Brasília e professor de Relações Internacionais, classifica a ilha como “pilar central de sobrevivência econômica” do país. Ele lembra que o local é ponto de partida da chamada “frota fantasma”, que burla sanções para abastecer o mercado chinês. Sem Kharg, calcula Caichiolo, Teerã teria estranguladas as receitas em divisas usadas para subsídios e manutenção da máquina pública.
Produção em ritmo recorde antes dos ataques
Levantamento da empresa de dados Kpler indica que, nas semanas que antecederam os bombardeios conjuntos de Israel e EUA iniciados há cerca de uma semana, a produção iraniana na ilha alcançou quatro milhões de barris por dia — patamar não visto desde 2018, quando novas sanções nucleares foram impostas pelo então presidente norte-americano Donald Trump.
Guarda Revolucionária depende da ilha
A Guarda Revolucionária Islâmica, considerada a “última guardiã” do regime, mantém controle direto sobre a segurança e a logística do terminal. Os recursos gerados em Kharg financiam não só operações militares, mas também atividades de inteligência e influência política interna.
Mercado teme impacto nos preços do petróleo
Até agora a instalação não foi atacada, e analistas atribuem a cautela à possível reação dos mercados. Na sexta-feira (6), o Brent superou US$ 92 por barril. Estimativa do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) projeta que um bloqueio à ilha retiraria até 1,6 milhão de barris diários destinados à China, elevando o barril em pelo menos US$ 10 a US$ 12. Destruição física da infraestrutura poderia provocar aumentos ainda maiores e prolongados.
Risco ao regime não é imediato
Para Caichiolo, a perda de Kharg traria “desafio existencial” ao regime, mas não garante queda imediata do poder. Nyegray ressalta que governos com aparato repressivo podem resistir por longos períodos mesmo sob colapso econômico, especialmente se a Guarda Revolucionária concentrar ainda mais controle sobre o Estado.
Com informações de Gazeta do Povo