Conflitos armados e disputas diplomáticas, frequentemente vistos como acontecimentos distantes, repercutem diretamente no orçamento doméstico de consumidores em todo o planeta. Especialistas alertam que choques geopolíticos encarecem combustíveis, energia elétrica, alimentos e produtos industrializados ao afetar cadeias globais de suprimentos e o mercado financeiro.
Oferta menor, preços maiores
De acordo com o professor Ahmed El Khatib, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), guerras e sanções geralmente atingem regiões-chave na produção de petróleo, gás, grãos, fertilizantes e metais industriais. Quando há risco de interrupção logística, o mercado reage de forma antecipada, elevando as cotações internacionais dessas commodities.
Esse fenômeno, classificado por El Khatib como “choque negativo de oferta”, reduz a disponibilidade global de insumos ou os torna mais caros, detonando aumentos de preços em série.
Exemplo recente: Rússia x Ucrânia
Estudo apresentado no Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Campinas (Unicamp) revela que a guerra iniciada em 2022 provocou forte disparada nos preços de gás natural, petróleo, trigo, milho e fertilizantes. A alta dos custos de energia foi a mais pronunciada, repercutindo na inflação de diversos países ao longo de 2022 e 2023.
Segundo a pesquisa, nações dependentes de energia russa, como a Alemanha, registraram avanço imediato dos índices de preços. Nos Estados Unidos, o impacto foi direto via energia; no Brasil, o efeito apareceu, mas foi relativamente menor, pois o país já enfrentava pressão inflacionária anterior.
Cadeias de suprimentos sob estresse
A instabilidade também encarece fretes, seguros de carga e leva governos e empresas a redirecionarem rotas ou formarem estoques preventivos. “A economia global passa a operar com custo médio mais alto e menor previsibilidade”, resume El Khatib. Mesmo países fora do conflito pagam mais ao importar bens intermediários, o que chega ao consumidor final.
Da bomba ao carrinho de compras
Combustíveis e energia entram na composição de praticamente todos os bens e serviços. Quando esses itens sobem, o efeito se espalha para transportes, indústria, comércio e, por fim, para o supermercado. No cotidiano, famílias sentem alimentos mais caros, contas de luz mais altas e reajustes em eletrônicos e passagens aéreas.
Efeito câmbio e mercado financeiro
Em cenários de incerteza internacional, investidores buscam ativos considerados seguros, como títulos do Tesouro norte-americano, movimento conhecido como flight to quality. A consequência é dólar valorizado e moedas de países emergentes, como o real, depreciadas. Se a matéria-prima sobe e a moeda local perde força, o impacto sobre os preços internos é duplamente ampliado, observa o professor da FECAP.
Tensão no Oriente Médio e reação do petróleo
O impasse envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, agravado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, exemplifica o mecanismo. Na segunda-feira, 2 de março, o barril do Brent avançou cerca de 10 % na abertura do mercado asiático. Para o economista Robson Gonçalves, da Fundação Getulio Vargas (FGV), caso a oferta fique comprometida por período prolongado, o encarecimento do petróleo tende a se transformar rapidamente em inflação global, elevando custos de frete e produção.
Como proteger o bolso
El Khatib sugere cautela com dívidas de longo prazo em períodos de turbulência, reforço da reserva de emergência e diversificação patrimonial. Decisões de consumo — como antecipar ou adiar compras de maior valor — também podem reduzir o impacto da volatilidade cambial e dos preços.
No cenário atual de cadeias produtivas interligadas, especialistas concluem que nenhum grande conflito permanece distante: seus reflexos chegam à inflação, ao câmbio e, consequentemente, ao custo de vida em todas as regiões.
Com informações de Gazeta do Povo