Home / Economia / Disparo no uso de canetas emagrecedoras derruba demanda e preços do açúcar no mundo

Disparo no uso de canetas emagrecedoras derruba demanda e preços do açúcar no mundo

ocrente 1772757284
Spread the love

São Paulo – 05/03/2026. A popularização dos medicamentos injetáveis para perda de peso, como Ozempic e Mounjaro, está remodelando o mercado global de açúcar. Com a sensação de saciedade provocada pelos remédios da classe GLP-1, o consumo do adoçante recua e pressiona as cotações da commodity.

Queda histórica nas bolsas internacionais

Nos contratos futuros do Sugar No. 11, referência mundial para o açúcar bruto, o preço caiu este mês para menos de US$ 0,14 por libra-peso, o menor nível em cinco anos. Em 12 meses, a desvalorização atinge 29%, sendo 4% somente em 2026, segundo a trading norte-americana Czarnikow.

USDA cita GLP-1 como risco

Pela primeira vez, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mencionou explicitamente os medicamentos GLP-1 como fator de incerteza para a demanda. Em relatório de 19 de fevereiro, o órgão estimou avanço de apenas 1,4% no consumo mundial de açúcar em 2026 e aumento de 5% nos estoques globais, que devem alcançar 44,4 milhões de toneladas.

Impacto direto no maior exportador

Responsável por cerca de 23% da produção planetária, o Brasil sente os efeitos da retração. No mercado interno, a saca de 50 kg de açúcar cristal branco foi negociada a R$ 98,14 em São Paulo na quinta-feira (26), menor cotação nominal desde outubro de 2020. Desde o início de 2025, o recuo chega a 39%, de acordo com o Cepea/USP.

Mudança de hábitos no varejo

Nos Estados Unidos e no México, onde o uso das canetas é mais disseminado, traders já observam estoques elevados. Na Europa, cresce a rejeição a produtos açucarados e ultraprocessados. Relatórios do Morgan Stanley (2023) e de maio de 2024 projetam que 9% dos norte-americanos usarão GLP-1 até 2035, forçando a indústria a reduzir porções e teor de açúcar. O Goldman Sachs calcula 30 milhões de usuários no país até 2030, o que representa um “vento contrário” estrutural para empresas dependentes de alimentos ricos em açúcar.

No Brasil, o tema já aparece em estudos de XP Investimentos e Itaú BBA. Em janeiro, durante a Latin America Investment Conference, o presidente do Assaí Atacadista, Belmiro Gomes, relatou queda nas vendas de alimentos calóricos e maior procura por itens saudáveis.

Flexibilidade, mas com limites

Usinas brasileiras podem redirecionar a cana para etanol quando o açúcar perde rentabilidade. Contudo, o sócio de agronegócios Frederico Favacho, do escritório Santos Neto Advogados, alerta que um eventual excesso de etanol pode derrubar também o preço do biocombustível.

Patente prestes a expirar

A ruptura da patente da semaglutida, princípio ativo das canetas emagrecedoras, prevista para 20 de março no Brasil e ainda este ano em outros grandes mercados, tende a baratear os medicamentos e ampliar seu uso, potencializando a pressão sobre a cadeia sucroalcooleira.

A discussão dominou a Dubai Sugar Conference, realizada no início do mês, onde executivos concordaram que as injeções para emagrecimento se somam a impostos sobre bebidas açucaradas e à preocupação com saúde como motores da queda de consumo no Ocidente.

Com informações de Gazeta do Povo