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Cidades-fortalezas bloqueiam Moscou e complicam acordo de paz na Ucrânia

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Quando a invasão russa à Ucrânia completa quatro anos nesta terça-feira (24), o futuro das chamadas “cidades-fortalezas” de Donetsk domina a agenda diplomática mediada pelos Estados Unidos. Sloviansk, Kramatorsk, Kostiantynivka e, em disputa, Pokrovsk formam o núcleo da linha defensiva montada por Kiev desde 2022 e hoje representam o principal impasse territorial entre Moscou e Kiev.

Negociações travadas

Delegações russas e ucranianas encontraram-se nos últimos meses no Oriente Médio e na Suíça sob supervisão de Washington, que, sob o presidente Donald Trump, pretende selar um cessar-fogo ainda no primeiro semestre de 2026. Os encontros avançaram em temas humanitários, troca de prisioneiros e mecanismos de monitoramento, mas esbarram na exigência russa de controle total das províncias de Donetsk e Luhansk, além de Zaporizhzhya, Kherson e da península da Crimeia.

Como surgiram as fortalezas

Segundo o coronel da reserva do Exército Brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especializado em relações internacionais, as atuais fortalezas começaram a ser reforçadas durante a Guerra do Donbas (2014-2022). Na ocasião, o governo ucraniano construiu trincheiras, fossos anticarro, bunkers e campos minados ao redor dessas cidades para conter milícias separatistas apoiadas por Moscou.

“Podemos considerar que as mais bem defendidas posições ucranianas estão em Donetsk, onde não há barreiras naturais relevantes”, afirmou Coutinho. Ele acrescenta que, sem o cinturão defensivo de Sloviansk, Kramatorsk e Kostiantynivka, a Rússia teria caminho aberto para declarar a conquista integral da província.

Importância estratégica

Além das defesas, as quatro cidades concentram eixos rodoviários e ferroviários essenciais ao abastecimento das tropas de Kiev. A perda desse corredor, avalia Coutinho, permitiria a Moscou ampliar o avanço para o oeste e fortalecer sua posição nas negociações.

Em Kherson e Zaporizhzhya, o Rio Dnipro ainda funciona como obstáculo natural ao Exército russo. Já em Donetsk, tudo depende das posições ucranianas erguidas pela engenharia militar. “A eventual queda dessas localidades pressionaria fortemente Kiev a aceitar as exigências russas”, disse o analista.

Outros pontos de atenção

Além do cinturão de Donetsk, duas áreas chamam a atenção dos estrategistas:

  • Kupyansk (província de Kharkiv): palco de combates urbanos, interessa a Moscou como zona de amortecimento na fronteira e moeda de troca territorial.
  • Zaporizhzhya (capital regional): menos fortificada que Donetsk, tornou-se alvo após o avanço russo sobre Pokrovsk.

Peso político e simbólico

Para o estrategista Cezar Roedel, as cidades-fortalezas reúnem valor militar, político e simbólico. Militarmente, impedem Moscou de reivindicar o controle total do Donbas. Politicamente, ceder esses centros urbanos significaria admitir ganhos territoriais obtidos pela força. No campo simbólico, podem definir quem sairá do conflito alegando vitória.

“Se permanecerem com Kiev, reforçam a narrativa de resistência. Se forem tomadas ou cedidas, servem a Moscou como prova de que o objetivo foi alcançado”, explicou Roedel.

Caminhos possíveis

A Casa Branca não descarta concessões territoriais como parte de um acordo. Nessa hipótese, o governo de Volodymyr Zelensky teria duas alternativas, aponta Roedel:

  1. Reconhecer oficialmente as perdas, formalizando a cessão das áreas ocupadas pela Rússia.
  2. Congelar a atual linha de frente sem reconhecimento jurídico, deixando a definição de status para o futuro.

Segundo o analista, a segunda via exigiria garantias ocidentais robustas, ainda não detalhadas. Reconhecer formalmente as ocupações, por outro lado, criaria precedente de mudança de fronteiras pela força, alerta Roedel.

Enquanto o impasse persiste, a resistência em Sloviansk, Kramatorsk, Kostiantynivka e Pokrovsk continua a ditar o ritmo da guerra e das conversas de paz, prolongando um conflito que já dura quatro anos.

Com informações de Gazeta do Povo