Um artigo do sociólogo Valdinei Ferreira, publicado na Folha de S.Paulo, destaca como o discurso que associa o voto na esquerda a um pecado perdeu força entre os evangélicos nas eleições presidenciais de 2026. Ferreira, doutor pela USP e fundador do Mapa Centrante, argumenta que, ao contrário de eleições anteriores, a opção por candidatos de esquerda se tornou menos proibitiva para esse segmento religioso.
Ferreira aponta que a extrema direita evangélica utilizou a estratégia do “pânico moral” para afastar eleitores da esquerda, dificultando discussões racionais sobre temas como aborto, feminismo e direitos LGBTQIA+. Essa abordagem, embora tenha resultado em vitórias expressivas para alguns candidatos nas esferas estadual e federal, mostrou-se menos eficaz na eleição presidencial, como evidenciado pela aceitação do resultado por pastores bolsonaristas.
O sociólogo observa que a administração de Luiz Inácio Lula da Silva não fechou igrejas, desmentindo alegações feitas por pastores durante as eleições de 2018 e 2022, e não promoveu campanhas contra o modelo tradicional de família, como era frequentemente afirmado por setores radicais da direita. Ferreira também menciona que a narrativa de que a esquerda é favorável ao aborto perdeu força, citando o deputado Otoni de Paula, que destacou a ausência de propostas de Lula sobre o tema.
A atuação de evangélicos de esquerda, que apoiaram Lula e contestaram a ideia de que a fé cristã é incompatível com a política progressista, também foi um fator importante nesse cenário. Apesar da falta de visibilidade em comparação a líderes pentecostais e neopentecostais, essas vozes desafiaram a narrativa predominante.
Ferreira atribui a diminuição do impacto do discurso moral a escândalos envolvendo figuras ligadas ao meio evangélico e à família Bolsonaro, que tornaram menos eficaz a ideia de que a disputa eleitoral era uma batalha entre a luz e as trevas. Entre os exemplos citados estão as ligações de Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel com a Igreja Batista da Lagoinha, que minaram a imagem da extrema direita evangélica como defensora da moralidade.
O sociólogo também critica a participação do influenciador evangélico Pablo Marçal na campanha de Flávio Bolsonaro, em que uma alegação falsa foi utilizada contra Guilherme Boulos. Esses episódios, segundo Ferreira, prejudicaram a pretensão da extrema direita de se posicionar como defensora da família.
Ao final, Ferreira ressalta que a moralidade não deve ser responsabilizada coletivamente por falhas individuais dentro do segmento evangélico, mas que a busca por superioridade moral pode levar a comparações indesejadas. Ele conclui sua análise referindo-se ao Evangelho de Mateus, enfatizando que o critério que se adota será usado contra si mesmo.
Fonte: Folha Gospel.









