Funcionários públicos que entregaram provas de supostas fraudes envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro tornaram público um esquema que, sem essas denúncias internas, permaneceria desconhecido. A prática de repassar documentos sigilosos à imprensa colocou em evidência a ausência de um sistema robusto de proteção a whistleblowers no Brasil.
Denúncias e perseguições
Entre os casos recentes está o de Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Alexandre de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 2025, Tagliaferro afirmou que o ministro selecionava alvos políticos e orientava a equipe a “encontrar algo” contra adversários. Mesmo apresentando registros que, segundo ele, comprovavam a prática, o ex-assessor foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por violação de sigilo funcional e deixou o país rumo à Itália para evitar prisão preventiva.
Outro episódio envolve a divulgação de um contrato de R$ 129 milhões firmado pela advogada Viviane de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, com o Banco Master. Servidores suspeitos de vazar o documento foram investigados e, segundo relatos, tratados como responsáveis por “crime grave”.
Pagamentos e infiltração em órgãos públicos
As revelações também apontam pagamentos milionários do Banco Master à Maridt, empresa ligada ao ministro Dias Toffoli, e a suposta influência de Vorcaro em setores do Banco Central, do Judiciário e da Polícia Federal. Segundo os denunciantes, a atuação visava blindar o banqueiro e seus parceiros de investigações oficiais.
Tentativas de silenciar a imprensa
Conversas obtidas pela reportagem mostram Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, do portal Leo Dias, discutindo estratégias para conter reportagens sobre o caso. Os diálogos indicam ofertas de contratos milionários para que jornalistas não avançassem nas apurações. Uma das principais alvos foi a repórter Malu Gaspar, de O Globo; sem encontrar informações comprometeroras sobre ela, o grupo considerou recorrer ao Judiciário para impedir novas publicações, alegando crime no vazamento das mensagens.
Debate sobre mudanças na lei
A sucessão de denúncias reacendeu, no Congresso, discussões sobre a criação de mecanismos que garantam anonimato e proteção efetiva a servidores que revelam irregularidades. Atualmente, a legislação brasileira foca no sigilo funcional, oferecendo salvaguardas limitadas aos denunciantes, ao contrário de modelos adotados nos Estados Unidos, onde há inclusive recompensas financeiras.
Para especialistas ouvidos pelo parlamento, sem novas regras o país continuará dependente de iniciativas individuais e vulneráveis a represálias, o que pode desestimular futuras colaborações.
Com informações de Gazeta do Povo