NOVA DÉLHI, Índia – A crise étnico-religiosa que começou em 3 de maio de 2023 no estado de Manipur, nordeste da Índia, completa três anos sem que altos responsáveis tenham sido levados à Justiça. De lá para cá, mais de 300 igrejas foram destruídas, pelo menos 217 pessoas morreram segundo dados oficiais (ou mais de 260 de acordo com estimativas independentes) e quase 60 mil permanecem em campos de deslocados.
Cenário demográfico e origem do conflito
Manipur, com cerca de 3 milhões de habitantes, é dividida entre o vale central — dominado pelos Meiteis, majoritariamente hindus — e as colinas que abrigam os povos tribais Kuki-Zo, Zomi e Naga, em sua maioria cristãos. Embora ocupem apenas 10% do território, os Meiteis controlam 40 das 60 cadeiras da assembleia estadual, a máquina pública e a economia.
A tensão explodiu quando, em março de 2023, um tribunal recomendou estender o status de “Tribo Agendada” aos Meiteis, privilégio que garante cotas em empregos e educação às minorias. Kuki-Zo e Naga entenderam a decisão como ameaça direta a suas terras. A marcha tribal de 3 de maio de 2023 terminou em ataques a templos: mais de 150 igrejas de 15 denominações foram incendiadas nas primeiras horas.
Escalada e resposta do governo
Organizações de direitos humanos apontam a milícia meitei Arambai Tenggol como um dos principais executores da violência. Lideranças Kuki-Zo acusam o então ministro-chefe N. Biren Singh (BJP) de conivência; gravações atribuídas a ele estão sob nova perícia por determinação da Suprema Corte.
O primeiro-ministro Narendra Modi ficou 77 dias sem se manifestar. Nesse intervalo, o estado impôs um bloqueio de internet que durou mais de 200 dias, descrito pelo Supremo Tribunal como “grave falha constitucional”.
Novo governo, velhos confrontos
Biren Singh renunciou em 9 de fevereiro de 2025, após o BJP perder as duas cadeiras federais de Manipur nas eleições de 2024. Em 4 de fevereiro deste ano, Yumnam Khemchand Singh (BJP) assumiu o cargo prometendo a “Jornada pela Paz”, mas a violência prossegue.
Mortes recentes reacendem tensão
Em 7 de abril, um foguete matou as crianças Tomthin, 5 anos, e Yaisana, de apenas 5 meses, no distrito de Bishnupur. Os corpos ficaram 25 dias no necrotério enquanto a família negociava garantias de segurança; o enterro ocorreu em 2 de maio. Desde então, pelo menos 11 pessoas morreram em novos confrontos.
Entre 18 e 24 de abril, emboscadas na rodovia NH-202 e ataques a aldeias em Ukhrul resultaram em outras cinco mortes, queimadas de 17 casas e troca de tiros entre grupos Kuki e Tangkhul Naga. A polícia demoliu 23 bunkers ilegais e apreendeu 18 artefatos explosivos em 30 de abril.
População deslocada e ajuda limitada
Até 30 de março, 58.881 pessoas viviam em 174 campos de refugiados; 7.894 casas foram totalmente destruídas e 2.646 sofreram danos parciais. O governo central destinou 947 milhões de rúpias (cerca de US$ 102 milhões) para assistência e reconstrução, e a administração estadual previu mais 734 milhões de rúpias (aprox. US$ 79 milhões) no orçamento 2026-2027. Apenas 3.000 casas pré-fabricadas foram entregues, com igrejas sustentando boa parte dos desalojados.
Negociações e exigências por status federal
Em 1º de maio, o Ministério do Interior retomou em Nova Délhi as negociações tripartites com 24 grupos armados Kuki-Zo, sob o Acordo de Suspensão de Operações (SoO). Os representantes tribais reiteraram a demanda por transformar as colinas em Território da União com legislatura própria — ruptura que afastaria as áreas Kuki-Zo do controle meitei.
Organizações civis Kuki proibiram a entrada de forças de segurança em aldeias do distrito de Ukhrul, alegando omissão diante de ataques. A medida evidencia a perda de confiança institucional após três anos de conflito.
Igrejas no alvo
Relatório do Fórum Nacional Cristão Unido indica que 300 igrejas foram destruídas desde 2023, alcançando templos meiteis cristãos. Famílias contam ter sido forçadas a assinar renúncias de fé e voltar ao hinduísmo. “As vítimas foram, em sua maioria, cristãs”, afirmou o reverendo Vijayesh Lal, da Aliança Evangélica da Índia.
Estado fragmentado
Hoje, Manipur está dividido em três zonas: o vale meitei, as colinas Kuki-Zo e o norte e leste dominados pelos Nagas, separados por postos de controle federais. Famílias que viviam em comunidades mistas foram deslocadas definitivamente e enfrentam trajetos de até oito horas para atendimento médico, já que os Kuki-Zo não podem acessar o aeroporto de Imphal, em território meitei.
Apelos por paz
Líderes cristãos pedem intervenção federal mais firme. “Se o governo quisesse, acabaria com a violência em dois dias”, disse o pastor meitei Samantha Singh. O reverendo Van Lalnghakthang, do Conselho de Boa Vontade Cristão de Churachandpur, alerta que a pacificação exige diálogo, reconciliação e reconstrução da confiança. Enquanto isso, 174 campos de refugiados ainda abrigam as vítimas de uma crise que não dá sinais de terminar.
Com informações de Folha Gospel