Um relatório de 61 páginas divulgado pela Anistia Internacional revela que comunidades cristãs no leste da República Democrática do Congo (RDC) sofrem uma onda de massacres, sequestros e ataques sistemáticos atribuídos às Forças Democráticas Aliadas (ADF), grupo que jurou lealdade ao Estado Islâmico em 2019.
Investigações de campo
Pesquisadores da entidade estiveram nas províncias de Kivu do Norte e Ituri entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, período em que entrevistaram 71 pessoas, incluindo sobreviventes, testemunhas, agentes humanitários, militares e representantes da ONU. O documento, intitulado “Nunca vi tantos corpos: Crimes de guerra cometidos pelas Forças Democráticas Aliadas no leste da RDC”, conclui que muitos dos abusos configuram crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Maioria das vítimas é cristã
Segundo a Anistia, a ADF atua sobretudo em áreas majoritariamente cristãs, o que explica o número elevado de fiéis entre as vítimas. A retórica religiosa do grupo também se intensificou; um vídeo de propaganda divulgado em setembro de 2025 pela Província da África Central do Estado Islâmico (ISCAP) descrevia a missão da milícia como “apoiar o Islã contra os cruzados”.
Principais ataques documentados
- Komanda – Um ataque a uma igreja na aldeia deixou mais de 40 mortos.
- Ntoyo – Em 8 de setembro de 2025, militantes infiltrados em um velório assassinaram mais de 60 pessoas.
- Otmaber – Em 12 de julho de 2025, uma família foi baleada e casas foram incendiadas; moradores relatam ausência das forças de segurança.
- Byambwe – Em novembro de 2025, um centro de saúde foi invadido, provocando pânico generalizado.
Sequestros e violência sexual
A campanha da ADF inclui raptos em massa, com ênfase em crianças e mulheres. Meninos são levados para campos na floresta, onde recebem treinamento militar e doutrinação islâmica sob ameaça de morte. Meninas, algumas com apenas 12 anos, relatam casamentos forçados, escravidão sexual e gestações decorrentes de estupros.
Testemunhos de trauma
Sobreviventes descrevem cenários de terror e abandono. “Nem mesmo de manhã os militares apareceram. Cada um teve que se virar sozinho”, relatou uma mulher ferida em Otmaber. Outra vítima, que perdeu o filho em um incêndio criminoso, afirmou viver “consumida pelo medo”.
Apelos da Anistia Internacional
A secretária-geral Agnès Callamard alertou para a “campanha desumanizante” contra civis e pediu ao governo congolês, à ONU, à União Africana e à comunidade internacional que reforcem a proteção às populações, melhorem sistemas de alerta precoce e garantam assistência médica, psicológica e de reintegração às vítimas.
A organização também exigiu que a ADF encerre imediatamente ataques, sequestros, violência sexual e o recrutamento de crianças, além de libertar todos os cativos.
Contexto do conflito
Formada na década de 1990 em Uganda e ativa no leste do Congo desde então, a ADF passou a ser reconhecida pelo Estado Islâmico em 2019, integrando o ISCAP. A Anistia destaca que a atenção internacional voltada ao avanço do grupo rebelde M23, apoiado por Ruanda, pode ter permitido à ADF ampliar suas ações enquanto recursos de segurança eram redirecionados.
Com informações de Folha Gospel