Neste domingo, 21 de junho, os colombianos regressam às urnas para decidir a Presidência entre o senador de esquerda Iván Cepeda, aliado do atual presidente Gustavo Petro, e o advogado nacionalista de direita Abelardo de la Espriella. O confronto, descrito por analistas como o mais polarizado da história recente do país, gira em torno de um tema dominante: a segurança pública.
Dez anos de pacto de paz sob escrutínio
O segundo turno ocorre exatamente uma década após a assinatura do acordo que desmobilizou as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Para muitos eleitores, o resultado desse pacto ainda é questionável e influencia diretamente o voto.
Cepeda, ex-ativista de direitos humanos e participante das negociações com Farc e Exército de Libertação Nacional (ELN), defende a continuidade do programa Paz Total do governo Petro, que tenta dialogar também com dissidências guerrilheiras e outros grupos armados.
Espriella, por sua vez, rejeita novas mesas de negociação. Seu movimento, Defensores da Pátria, sustenta que somente a ação militar direta mostrou eficácia contra organizações ilegais. Em nota, a legenda classificou tentativas de diálogo posteriores a 2016 como “desfile de impunidade”.
Acusações cruzadas
A troca de acusações reforça a divisão. Aliados de Espriella atribuem a Cepeda proximidade com parte das Farc que não aceitou o acordo; já o esquerdista aponta supostos vínculos de seu adversário com grupos paramilitares que combatem guerrilhas.
Números da violência
Dados do Banco Mundial mostram que o índice de homicídios na Colômbia, embora distante do pico de 70 por 100 mil habitantes registrado em 2001, permanece estagnado em 25 nos últimos anos — mais que o dobro do limite de “violência epidêmica” definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A sensação de insegurança ganhou novo impulso com crimes de grande impacto. Entre eles, o assassinato, em 2025, do senador conservador Miguel Uribe Turbay após ser baleado em Bogotá, e um atentado a bomba no departamento de Cauca, em abril último, que deixou 20 mortos e 36 feridos. Investigadores atribuem ambos os ataques a facções guerrilheiras.
Pleito vira plebiscito sobre negociar ou reprimir
Para a especialista em finanças públicas Adriana Melo, ouvida pela Gazeta do Povo, a votação deste domingo transformou-se num referendo: manter a estratégia de negociação ou endurecer o combate armado. Melo lembra que dissidências das Farc, o ELN, o narcotráfico e outras economias ilegais avançaram em áreas onde o Estado permaneceu ausente após 2016.
O professor de história e analista político Victor Missiato avalia que a morte de Uribe Turbay, ainda durante a formação das chapas, tornou o debate sobre segurança “extremamente sensível”. Ele também destaca o exemplo de políticas de mão dura adotadas em El Salvador pelo presidente Nayib Bukele, frequentemente citado por Espriella.
Influência externa na campanha
A campanha ganhou tom internacional com o apoio público do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao candidato de direita. Petro classificou o gesto como tentativa de interferência externa, enquanto Espriella celebrou a aproximação, prometendo política de segurança mais alinhada a Washington.
Pesquisas divulgadas na última semana apontam vantagem de Espriella, sugerindo que parte significativa do eleitorado acredita que os acordos com guerrilhas fracassaram em assegurar paz duradoura.
A contagem final dos votos deverá indicar se a Colômbia continuará apostando no diálogo ou optará por uma guinada de força contra grupos armados, num contexto em que a memória da violência permanece viva na sociedade.
Com informações de Gazeta do Povo