Um perdão concedido em abril de 2023 pela então presidente húngara Katalin Novák a um ex-subdiretor de orfanato condenado por obstruir denúncias de abuso sexual desencadeou uma crise política que, dois anos depois, derrubou o primeiro-ministro Viktor Orbán. Neste domingo, 12 de abril de 2026, o partido de centro-direita Tisza conquistou mais de 53% dos votos e, até agora, 138 das 199 cadeiras do Parlamento, encerrando 16 anos de domínio do Fidesz.
Como começou
Durante a visita do papa Francisco a Budapeste, em 21 de abril de 2023, Novák assinou 25 indultos. Entre os beneficiados estava o ex-gestor do orfanato, condenado a três anos por pressionar crianças a retirar queixas contra o diretor da instituição, sentenciado a oito anos por abusos repetidos.
O caso permaneceu em sigilo até 2 de fevereiro de 2024, quando o portal independente 444.hu o tornou público. A divulgação provocou protestos de rua e levou à renúncia, em cadeia nacional de TV, da própria Novák e da ministra da Justiça, Judit Varga, que havia referendado o perdão e seria cabeça de lista do Fidesz nas eleições europeias de 2024.
Ascensão de Péter Magyar
O indulto expôs divisões internas no Fidesz. Dias após a revelação, Péter Magyar — ligado ao partido governista e ex-marido de Varga — rompeu com Orbán, acusando o governo de transformá-lo e Novák em “bodes expiatórios”. Na sequência, assumiu o controle do Tisza, fundado em 23 de outubro de 2020 por Attila Szabó e Boldizsár Deák, mas até então inativo e sem financiamento público.
Rebatizado pelo movimento “Álljunk fel, magyarok!” (“Levanta, húngaros!”), o Tisza montou a rede comunitária Tisza Szigetek e, em junho de 2024, estreou nas urnas para o Parlamento Europeu, obtendo 29,6% dos votos e sete assentos no Partido Popular Europeu.
Virada nas parlamentares
Desde então, Magyar visitou 500 municípios, inclusive redutos tradicionais do Fidesz. Na eleição deste domingo, o Tisza garantiu uma supermaioria que lhe permite alterar a Constituição e revisar instituições que, segundo organismos internacionais, foram capturadas pelo governo Orbán, como mídia e Judiciário.
Nova direção externa
Embora também de centro-direita, o Tisza promete cortar a dependência energética da Hungria em relação à Rússia até 2035, alinhar-se novamente à União Europeia e adotar postura mais favorável à Ucrânia, sem envio de armamentos. A vitória foi saudada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pelo chanceler alemão Friedrich Merz, pelo presidente francês Emmanuel Macron e pelo primeiro-ministro finlandês Petteri Orpo.
Derrotado, Orbán reconheceu o resultado e parabenizou Magyar. Nos comícios finais, apoiadores do novo premiê repetiam o slogan: “Árad a Tisza!” — “O Tisza está transbordando!”. Neste 12 de abril, o “rio” político tomou conta da Hungria.
Com informações de Gazeta do Povo