Évian-les-Bains (França) – O Grupo dos Sete (G7) — formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido — inicia nesta segunda-feira, 15 de junho, sua cúpula de 2026 com a coesão abalada por disputas internas e pelo avanço de potências médias convidadas, como Brasil e Índia.
Choque entre Washington e aliados europeus
Desde que reassumiu a Presidência dos Estados Unidos em janeiro de 2025, Donald Trump ampliou taxações sobre produtos europeus, em reação às sanções da União Europeia contra big techs norte-americanas. O republicano também voltou a defender a anexação da Groenlândia, território dinamarquês, ameaçando sobretaxar países que se opõem à ideia, entre eles França, Alemanha e Reino Unido.
A discórdia extrapola a economia. Trump critica aliados da Otan e o Japão por não apoiarem militarmente os EUA na guerra contra o Irã, ampliando o distanciamento político dentro do bloco.
Ruptura mais profunda que em 2018
O colunista Gilles Paris, do Le Monde, comparou o cenário atual ao encontro de 2018, no Canadá, quando Trump retirou o aval americano ao comunicado final. “A cisão agora alcança quase todos os temas que deveriam unir o grupo”, escreveu, citando comércio e política energética. O presidente norte-americano cortou verbas para projetos de energia renovável e reforçou o apoio a combustíveis fósseis.
Especialista aponta “paralisia funcional”
Para Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, o G7 “vive uma paralisia funcional crônica”. Segundo ele, a combinação de tarifas protecionistas dos EUA e regulações europeias contra empresas americanas cria “uma guerra comercial e tecnológica dentro do bloco”, corroendo sua relevância. O docente sugere que o grupo concentre esforços em temas como inteligência artificial para recuperar prestígio.
Convite a Brasil e Índia
Potências médias voltam a ter lugar à mesa em Évian-les-Bains. No Fórum Econômico Mundial, no início do ano, o premiê canadense Mark Carney advertiu que economias desse porte precisam se unir “para não acabar no cardápio”.
O cientista político Robert Muggah avalia que esses Estados “agora têm peso suficiente para exigir papel maior na definição da nova ordem”. Já o acadêmico indiano Swaran Singh lembra que, em 1975, o G7 representava 70% do PIB global; hoje detém 43% em valores nominais e menos de 28% em paridade de poder de compra, além de concentrar menos de 10% da população mundial.
BRICS não ocupam o vácuo
Embora China e Rússia tentem posicionar os BRICS como contraponto ao G7, divergências internas ficaram evidentes na reunião de chanceleres realizada em maio, na Índia, que terminou sem consenso sobre a guerra no Irã devido ao embate entre Teerã e Emirados Árabes Unidos.
Complemento e contrapeso
Caichiolo considera que Brasil e Índia “complementam o G7 em agendas globais, como transição energética e cadeias de suprimentos”, mas também atuam como contrapeso ao defender a reforma de instituições financeiras internacionais sem aderir automaticamente a Washington ou Bruxelas.
A reunião em Évian-les-Bains prossegue até quarta-feira (17) e deve encerrar-se com declaração conjunta — ainda incerta — sobre comércio, clima e segurança.
Com informações de Gazeta do Povo