Com população de 3,4 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto que representa menos de 4% do brasileiro, o Uruguai tem conquistado empresas e trabalhadores qualificados vindos do Brasil graças a um ambiente institucional considerado mais previsível e seguro.
Segurança jurídica é o diferencial
Para Izak Carlos, economista-chefe do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), a principal distância entre os dois países está na qualidade das instituições. Segundo ele, a combinação de respeito a contratos, estabilidade regulatória e atuação estatal limitada reduz riscos e, consequentemente, o custo de investir no país vizinho, seja em juros menores, trâmites mais rápidos ou menor volatilidade cambial.
No Brasil, apesar de um sistema financeiro sofisticado, a complexidade tributária, as constantes alterações de regras e a insegurança jurídica elevam a percepção de risco e o custo de transação.
Indicadores reforçam vantagem uruguaia
Números do Índice de Liberdade Econômica do Fraser Institute mostram o contraste: o Brasil aparece na 87ª posição geral, enquanto o Uruguai ocupa a 53ª. No subíndice de regulação, os lugares são 144º e 76º, respectivamente. Já em proteção aos direitos de propriedade, o Uruguai figura em 44º e o Brasil em 87º.
Claudio Shikida, professor do Ibmec, avalia que o capital naturalmente migra para onde há melhores condições de retorno e vê o governo uruguaio comprometido em manter um ambiente de negócios favorável. “Empreendedores não permanecem onde a insegurança é maior”, resume.
Fisco controlado, burocracia menor
Embora mais enxuto, o sistema financeiro uruguaio exibe previsibilidade regulatória, menor interferência política e tradição de estabilidade monetária, afirma Izak Carlos. O histórico de responsabilidade fiscal também contribui para reduzir a volatilidade macroeconômica. Além disso, o país dispõe de menos burocracia, modelo tributário mais simples e incentivos claros a capital estrangeiro, como zonas francas e regimes para novos residentes fiscais.
Residência de brasileiros dispara
A Direção Nacional de Migração do Ministério do Interior uruguaio concedeu, em 2025, 2.403 autorizações de residência a cidadãos brasileiros, ficando atrás apenas dos argentinos. A procura cresceu a partir da pandemia, impulsionada por diversificação patrimonial, qualidade de vida e benefícios fiscais em regiões como Montevidéu e Punta del Este.
Uruguai como centro de capitais
Relatórios recentes do Banco Central do Brasil revelam que o Uruguai funciona como um hub para estruturas societárias. O capital que ingressa formalmente via Uruguai soma US$ 7,1 bilhões, mas os investimentos controlados por empresas sediadas no país alcançam US$ 58,4 bilhões. A prática é comum a corporações multinacionais que utilizam jurisdições intermediárias para organizar cadeias de controle.
Exemplo que o Brasil ainda não segue
Ricardo Gomes, presidente do Instituto Millenium, observa que a estabilidade uruguaia não necessariamente torna o país o mais barato ou o mais rico, mas o coloca entre os mais previsíveis. Para Shikida, a experiência do vizinho demonstra que instituições funcionando em prol da sociedade elevam bem-estar, ao contrário de um ambiente onde conexões políticas pesam mais que o mérito econômico.
Com informações de Gazeta do Povo