Brasília – A busca da China por maior autossuficiência em alimentos, definida no 15º Plano Quinquenal (2026-2030), deve reduzir gradualmente as compras de commodities e colocar em risco a principal fonte de receita do agronegócio brasileiro, que exportou US$ 55,3 bilhões para o mercado chinês em 2025 – 32,7% de toda a pauta nacional.
Peso decisivo da China nas exportações do Brasil
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o país asiático absorve 71% da soja e mais da metade da carne bovina vendidas pelo Brasil ao exterior. A nova diretriz chinesa, que prioriza segurança alimentar e redução de dependência externa, rompe um ciclo de expansão praticamente ilimitada das importações agrícolas iniciado nos anos 2000.
Diretrizes do 15º Plano Quinquenal
Aprovado em outubro de 2025, o plano eleva a segurança alimentar a prioridade de Estado até 2035 e determina:
- Desenvolvimento de cultivares de alto rendimento e resistentes a pragas, para cortar royalties externos;
- Adoção de inteligência artificial, big data e maquinário automatizado na lavoura;
- Modernização da cadeia de frio e redução de perdas pós-colheita;
- Manutenção de 120 milhões de hectares de áreas cultiváveis e recuperação de solos degradados.
As metas foram detalhadas no Documento Central nº 1, divulgado em 3 de fevereiro de 2026, que também traçou ações de combate à pobreza rural, aumento da renda dos agricultores e reforço da liderança do Partido Comunista no campo.
Barreiras já em vigor contra produtos brasileiros
Os primeiros sinais de restrição apareceram neste ano:
- Soja: em março, 2,5 mil caminhões foram retidos no Porto de Paranaguá (PR) pela presença de sementes de plantas daninhas quarentenárias – número que, em apenas 15 dias, já equivalia a mais da metade dos casos de todo 2025 (4,1 mil cargas).
- Carne bovina: salvaguarda impôs cota anual de 1,1 milhão de toneladas com tarifa reduzida, 600 mil toneladas abaixo do volume embarcado em 2025; excedente paga 55% de imposto.
- Fertilizantes: Pequim limitou exportações de fosfatados para proteger o mercado interno, elevando custos de produção no Brasil.
Queda estimada nas compras de soja
O relatório China’s Food Future, elaborado por Systemiq e Gordon and Betty Moore Foundation, projeta corte de até 23,5 milhões de toneladas nas importações globais de soja chinesa – redução de 25%. Para o Brasil, a perda pode variar de 10 a 20 milhões de toneladas por ano até 2030, significando recuo de US$ 5 a US$ 20 bilhões em faturamento anual.
Efeitos em cascata para o agro brasileiro
Com menor demanda chinesa, o excedente global tende a derrubar cotações internacionais, apertar margens de produtores e até desvalorizar terras recém-abertas. Investimentos em armazenagem, logística e maquinário podem ser revistos ou adiados.
Caminhos sugeridos para mitigar riscos
O mesmo estudo recomenda que o Brasil diversifique destinos – citando acordos Mercosul-União Europeia, EFTA e Singapura – e invista em industrialização local para agregar valor. Também aponta oportunidades de cooperação com a própria China em áreas como biocombustíveis, descarbonização e inteligência artificial aplicada à agricultura.
As medidas chinesas indicam que o mercado de commodities agrícolas vive fase de transição, na qual depender de um único grande comprador pode se tornar um passivo estratégico para o setor exportador brasileiro.
Com informações de Gazeta do Povo