A definição sobre o papel das Forças Armadas e a política externa do Brasil revela as diferenças fundamentais entre as propostas de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições deste ano.
O debate principal se concentra na identificação da maior ameaça ao Estado brasileiro e na forma como os recursos militares devem ser utilizados. A proposta de Flávio, que foi protocolada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 13 de agosto, enfatiza o emprego das Forças Armadas no combate ao crime organizado transnacional e ao narcotráfico na América do Sul. Em contrapartida, o plano de Lula, registrado no início do mês, destina a atuação militar à dissuasão de possíveis agressões de outros países.
O uso das Forças Armadas reflete as visões distintas sobre política externa de cada candidato. Flávio adota uma abordagem pragmática voltada para o comércio, enquanto Lula se alinha a uma perspectiva ideológica, buscando a integração com os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos).
A proposta de Flávio Bolsonaro vincula a soberania nacional à segurança pública, considerando que o principal desafio do Brasil é a atuação de facções criminosas e redes internacionais que operam nas fronteiras. Sua estratégia prevê a participação das Forças Armadas no combate ao narcoterrorismo.
“Utilizaremos uma ampla gama de tecnologias, priorizando inovações como drones e inteligência artificial”, afirma parte do plano de Flávio sobre o enfrentamento ao narcotráfico e ao terrorismo, que se alinha com a política externa americana de erradicação do narcoterrorismo.
Por sua vez, as diretrizes do plano de Lula fundamentam-se em conceitos tradicionais de defesa nacional, onde as Forças Armadas têm como principal função proteger o território, a Amazônia e os recursos estratégicos contra ameaças externas. O plano afirma que a segurança pública deve ser administrada por órgãos civis, enquanto as Forças Armadas devem focar na prontidão operacional e na autonomia tecnológica do país.
Sem mencionar diretamente os EUA, o plano de Lula destaca que o Brasil deve ser capaz de tomar decisões e implementar políticas independentes de influências externas. Nesse sentido, o fortalecimento da Base Industrial e Tecnológica de Defesa (BITD) é considerado crucial para fomentar a inovação e diminuir a dependência de suprimentos militares estrangeiros.
“Implementamos uma nova legislação orçamentária que garante previsibilidade e continuidade para investimentos em defesa, assegurando a continuidade dos projetos e fortalecendo a BITD como um vetor de inovação”, enfatiza o plano de reeleição do candidato petista.
A análise das propostas revela duas abordagens distintas para a segurança e atuação internacional do Estado. Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que a proposta de Flávio relaciona a credibilidade da soberania à luta contra o crime organizado, priorizando a cooperação com economias consolidadas e a conformidade com padrões globais de governança. Em contrapartida, a diretriz de Lula vê a soberania como a capacidade de manter a autodeterminação geopolítica, investindo em autonomia industrial militar e estabelecendo laços mais estreitos com países de blocos emergentes, como os Brics.
Dessa forma, a comparação revela dois caminhos distintos: um que une defesa nacional e segurança pública na luta contra o narcotráfico, e outro que separa a defesa soberana contra ameaças externas da segurança pública interna, como explica o especialista em Relações Internacionais Cézar Roedel.
“Flávio busca retomar relações com aliados tradicionais, como os Estados Unidos, e adotar uma postura pragmática no combate ao crime organizado, mesmo que isso implique a necessidade de apoio estrangeiro. A abordagem de Lula enfatiza uma suposta defesa da soberania contra potências externas”, complementa.
O especialista em segurança e presidente da Associação dos Oficiais do Paraná, Alex Erno Breunig, acredita que a segurança pública é a principal preocupação do eleitor brasileiro. Nesse contexto, ele argumenta que investir em defesa contra outras nações pode ser um desvio da realidade.
“Se o objetivo do governo é proteger o Brasil de países vizinhos, não há necessidade de grandes investimentos. O Brasil não tem adversários significativos em suas fronteiras. Se o intuito é proteger o território nacional de potências militares, como os EUA, simplesmente aumentar os investimentos não resolve a questão”, conclui.









