A ONG Compassion International alerta sobre o risco de inundações severas a partir de outubro de 2026 em várias nações africanas.
A organização humanitária iniciou uma mobilização preventiva envolvendo mais de 8 mil igrejas parceiras em 29 países da África, visando enfrentar os efeitos de um fenômeno El Niño que pode ser um dos mais intensos já registrados. A preparação antecipada tem como objetivo minimizar os impactos de inundações significativas, especialmente na África Oriental e Ocidental, conforme explicou a gerente sênior de resposta a desastres, Faith Magadi, ao portal Christian Daily International.
De acordo com previsões do Centro de Previsão Climática da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há uma probabilidade de 63% de que um evento muito forte ocorra, caracterizado por temperaturas da superfície do mar superiores a 2,0 °C da média na região do Pacífico. Em julho, o Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade registrou uma temperatura semanal na região Niño 3.4 em 2,1 °C acima da média, com modelos climáticos indicando um pico de intensidade entre outubro e dezembro.
A variabilidade histórica do fenômeno exige que as autoridades locais atuem com cautela e proatividade. A especialista da Compassion enfatizou que as condições climáticas exigem monitoramento constante das previsões regionais.
“O comportamento do El Niño é imprevisível; às vezes, é previsto como muito forte e não se confirma, enquanto em outras ocasiões, não se espera que seja forte e ele se revela mais intenso do que o imaginado. Sempre há uma chance de 50/50, mas este cenário se torna cada vez mais provável à medida que o tempo avança,” afirmou Magadi.
O mapeamento de vulnerabilidades da Compassion indica que países como Quênia, Uganda, Etiópia, Tanzânia e Ruanda estão diretamente ameaçados por chuvas excessivas na África Oriental. Na parte ocidental do continente, nações como Gana, Togo e Burkina Faso enfrentam um nível de exposição sem precedentes em comparação com eventos passados. No Gana, o impacto já é evidente, com chuvas severas entre junho e julho que resultaram em inundações, desalojando milhares de famílias e causando diversas fatalidades, incluindo na Costa do Marfim. Um relatório governamental de Gana, sob a supervisão do ministro do Interior, Mohammed Muntaka Mubarak, registrou 12 mortes, sete desaparecidos e mais de 38 mil pessoas afetadas em 25 comunidades, após chuvas que ultrapassaram 140 milímetros na capital durante o governo de John Mahama.
A soma de crises agrava a vulnerabilidade social existente.
Magadi destacou como um desastre dessa magnitude pode intensificar as dificuldades em comunidades já empobrecidas. “Uma inundação agrava a pobreza, se junta a uma temporada de chuvas insatisfatória e a habilidades e acesso limitados a serviços financeiros. Essa combinação de fatores resulta em uma crise prolongada. Uma situação que poderia ser resolvida em três meses se estende por um período maior,” explicou.
Um relatório da UNICEF sobre riscos climáticos infantis aponta que mais de 65 milhões de crianças nas regiões leste e sul da África já estão enfrentando múltiplas ameaças climáticas. A assistência humanitária da Compassion já atuou nessa mesma região entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, fornecendo alimentos e recursos financeiros a cerca de 7 mil famílias no condado de Marsabit, no Quênia, beneficiando aproximadamente 43 mil pessoas.
Em resposta à iminência do desastre, a Compassion recomenda que as lideranças eclesiásticas locais assumam um papel ativo na liderança comunitária e no diálogo com as autoridades, forças de segurança e departamentos governamentais de emergência. A estratégia da instituição se baseia em quatro etapas essenciais de preparação para os próximos meses: organização interna das paróquias, aquisição de equipamentos de emergência como lanternas e dispositivos de comunicação básicos, identificação de moradores vulneráveis — especialmente idosos, pessoas com deficiência e famílias chefiadas por menores — e conscientização das famílias sobre ações preventivas que podem ser adotadas dentro de suas capacidades financeiras.
A eficiência financeira da preparação justifica o enfoque preventivo da organização. Estudos mostram que cada dólar investido em preparação para desastres pode economizar cerca de sete dólares que seriam necessários em respostas emergenciais posteriores, uma proporção apoiada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pelo Programa Mundial de Alimentos (WFP), que em junho de 2026, lançaram um apelo conjunto de 202 milhões de dólares para proteger 8,8 milhões de pessoas.
A especialista também ressaltou os benefícios práticos da mitigação antecipada. “A resposta a desastres envolve logística e infraestrutura danificada que precisam ser reparadas, tornando-se mais custosa do que a preparação,” destacou.
Embora as previsões indiquem um cenário desafiador, especialistas sugerem cautela ao avaliar projeções de longo prazo. Pesquisadores climáticos, como Paul Roundy, alertam que o histórico de super El Niños é limitado a apenas três registros instrumentais confiáveis, o que restringe a base para previsões definitivas. Enquanto o leste da África se prepara para volumes elevados de chuva, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (IFAD) adverte que regiões do Sahel e do sul do continente podem enfrentar secas severas durante o mesmo período.









